Idealizada pela curadora Erica Souza, a plataforma Ímpar lança sua primeira coleção focada no conceito oriental “Ma”, reunindo de xilogravuras do período Edo a fotografias contemporâneas.
O mercado de artes visuais frequentemente esbarra em um obstáculo estrutural: a percepção de inacessibilidade. Para grande parte do público, a aquisição de obras originais soa como um processo intimidador, restrito a orçamentos de elite, o que acaba empurrando o consumidor comum para a compra de pôsteres genéricos produzidos em massa. É exatamente nessa lacuna, no vasto espaço comercial e estético entre a alta galeria e a impressão industrial, que surgem iniciativas focadas em desmistificar o colecionismo e integrar a arte autêntica ao cotidiano habitacional.
Esse movimento de aproximação é o eixo central da Ímpar, um projeto de curadoria estruturado para reduzir a distância entre o público e a produção artística de qualidade. A iniciativa foi fundada por Erica Souza, profissional com trajetória consolidada no mercado financeiro, mas que sempre manteve uma pesquisa contínua voltada para a arquitetura e a garimpagem de peças em feiras, pequenos ateliês e ruas. O projeto de curadoria nasceu justamente quando o acúmulo de achados independentes ultrapassou a capacidade física de sua própria casa, gerando a necessidade de criar um canal de compartilhamento.
A premissa da plataforma foge do elitismo, tratando a obra de arte como um elemento de linguagem essencial, capaz de imprimir identidade aos espaços e influenciar a rotina de quem os habita. Para estruturar sua estreia no mercado, o projeto focou em uma curadoria internacional, reunindo 15 obras adquiridas durante uma pesquisa no Japão.
Intitulada “Ma” (間), a coleção apropria-se de um conceito japonês que não possui tradução literal direta, definindo o “espaço” não como um vazio, mas como a pausa entre dois gestos ou o intervalo necessário para dar forma ao que existe. O objetivo curatorial é propor um respiro visual na velocidade da rotina contemporânea, dialogando diretamente com o minimalismo e a estética wabi-sabi.
O acervo reúne uma multiplicidade de suportes e épocas, englobando fotografias contemporâneas, obras têxteis, colagens e xilogravuras modernas. Do ponto de vista histórico, o destaque documental da coleção é uma xilogravura original (woodblock print) datada de 1836. A peça foi produzida por Settan Hasegawa, artista de relevância histórica por documentar os detalhes da vida em Edo (antiga Tóquio). Com quase duzentos anos, a obra apresenta a pátina autêntica do tempo e foi impressa sobre papel Washi original da época — um suporte milenar de fibras naturais reconhecido por sua resistência excepcional.
Em sua fase de lançamento, a Ímpar adota uma estratégia de crescimento orgânico. Além de finalizar a disponibilização das 15 peças que compõem a coleção oriental, a curadoria projeta a expansão de seu modelo de atuação a curto prazo. O próximo passo é abrir a plataforma para novos artistas que necessitem de uma ferramenta viável de divulgação e comercialização, fortalecendo o ecossistema entre quem produz cultura e um público que busca consumir arte fora dos circuitos tradicionais de galerias.
