A artista visual e musicista Clarice Pessoa une a poética de Dorival Caymmi ao muralismo para debater a preservação da imaginação autêntica na vida adulta.
A separação rígida entre as disciplinas artísticas é uma convenção acadêmica que frequentemente empobrece a produção contemporânea. Transitando na contramão dessa fragmentação, a trajetória da artista visual e produtora cultural Clarice Pessoa estrutura-se em uma base fundamentalmente sinestésica. Nascida na vila de pescadores de Ponta da Fruta, no Espírito Santo, e radicada no Rio de Janeiro desde a infância, a atual graduanda em Música pela UNIRIO utiliza sua bagagem sonora para modular sua pesquisa visual. O mar deixa de ser apenas uma referência geográfica para atuar como um arquivo afetivo. É a partir do estímulo auditivo das composições de Dorival Caymmi — especificamente da memória da canção “Acalanto” — que a artista concebe a série de pinturas “Uma História de Pescador”, provando que a tela pode operar como uma extensão tátil da experiência musical.
O estigma do imaginário infantil como força criativa autêntica
No circuito das artes, a validação crítica costuma exigir narrativas de extrema gravidade, muitas vezes marginalizando poéticas que abraçam o lúdico. Ao assumir publicamente a intenção de permanecer fiel à sua “criança interior”, a artista propõe um debate sociológico e psicanalítico urgente. A preservação de um estado de espírito mais livre — frequentemente estigmatizado pela sociedade como uma postura “infantil” ou “esquisita” — atua, na verdade, como um mecanismo sofisticado de autenticidade. Em um mundo exaustivo que exige a criação constante de personas e máscaras de normalidade para a adaptação social, permitir que a imaginação se expresse de forma vulnerável é um ato de resistência psicológica. As paisagens e os mares em azul profundo que Clarice constrói não mapeiam o mundo físico, mas oferecem um território interno e seguro onde é possível baixar a guarda e habitar a própria essência sem o peso do julgamento adulto.
O hibridismo de suportes e a expansão para o espaço urbano
A recusa em se limitar a uma única linguagem reflete-se diretamente na escolha dos materiais e suportes. Embora a tinta óleo e a acrílica sejam a base de sua produção em tela, a investigação flui para o giz pastel, a aquarela e o nanquim sempre que a narrativa exige uma nova textura. Esse hibridismo atinge seu ápice na prática do muralismo, que desloca seu trabalho do ateliê introspectivo para a dinâmica coletiva da cidade. A execução recente de um mural no Colégio Pedro II (São Cristóvão), contando com a participação ativa de estudantes, e o desenvolvimento de oficinas de arte para crianças no SESI FIRJAN Morro Azul atestam a dimensão política de sua obra. A arte, nesse contexto, ultrapassa a contemplação estética para atuar como ferramenta objetiva de impacto social, terapia e democratização de conhecimento.
A chancela institucional e o diálogo visual
A organização técnica de seu imaginário onírico — alimentado por diários de sonhos mantidos desde os 15 anos — encontrou na Escola Radar o espaço de estruturação necessário para o amadurecimento autoral. Essa transição para uma produção mais metódica garantiu uma rápida inserção institucional. O acervo da artista já integrou seis exposições coletivas de relevância, ocupando centros de consagração histórica no Rio de Janeiro, como o Parque Glória Maria, o Espaço Cultural Correios Niterói e o Centro de Artes Calouste Gulbenkian. Em paralelo, a convergência entre suas duas áreas de atuação consolidou-se comercialmente em 2025 com a assinatura da capa do álbum “Caminhos da Ladeira”, do músico Anderson Maia, reafirmando a versatilidade de sua assinatura visual.
Acesso ao território afetivo e colecionismo
Acompanhar a produção de artistas que expõem seus territórios internos exige do público uma postura de acolhimento e escuta sensível. Para curadores, leitores e colecionadores que buscam obras ancoradas na memória afetiva e na libertação do imaginário, a artista documenta seus processos, novas exposições e murais através do Instagram [@kurarisu]. O acompanhamento desse canal permite o acesso direto a uma poética que subverte a rigidez contemporânea, oferecendo o azul profundo de suas telas como um convite definitivo à pausa e à reconexão emocional.
