Casa Brasil é inaugurada com obras decoloniais e feministas

Casa Brasil é inaugurada com obras decoloniais e feministas

O primeiro shopping center do Brasil ganha um novo nome: agora é Casa Brasil. Bem, ele não abriu exatamente como um shopping, em 1820, quando foi inaugurado, mas como Praça do Comércio, um projeto do arquiteto francês Grandjean de Montigny, por encomenda de D. João VI, para o centro do Rio de Janeiro. 

Para quem não se recorda, o Brasil, naquela época, sequer era independente de Portugal e, entre as mercadorias à venda, para vergonha da humanidade em um de seus mais violentos e desprezíveis momentos, estavam escravizados trazidos da África. 

Em 1824, o prédio se tornou sede da Alfândega e, entre 1956 e 1978, foi casa do 2º Tribunal do Júri. A função cultural do solar neoclássico teve início quando o antropólogo Darcy Ribeiro (1922 – 1997) foi secretário de cultura do Estado do Rio e revitalizou o espaço a partir de um convênio entre o Ministério de Cultura da França e o do Brasil.

No entanto, o nome Casa França-Brasil surgiu apenas em 1990, após um projeto do museólogo francês Pierre Castel, abrigando especialmente exposições de nomes aclamados como a francesa Niki de Saint Phalle ou o espanhol Joan Miró, entre tantos outros, além de sala de vídeo.

A Casa França-Brasil durou 35 anos, até o ano passado, quando um grupo de agentes da cultura, com suporte da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro, procurou “o reposicionamento da casa para afirmar identidade pensando na cultura ancestral local”, segundo Tania Queiroz, diretora da Casa Brasil e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. O time reúne ainda o artista e professor Cadu, o curador do Museu de Arte do Rio Marcelo Campos e o produtor Jocelino Pessoa.

A mudança foi possível de fato graças à aprovação da requalificação em um edital da Petrobras, no eixo Ícones da Cultura Brasil, e o projeto recebeu R$ 4 milhões renovável por mais um ano. De acordo com o projeto, são duas mostras coletivas e duas individuais ao longo do primeiro ano, além de um alentado programa público e um podcast, coordenado pela jornalista Daniela Name.

Com o foco na produção de arte contemporânea brasileira, a primeira mostra da Casa Brasil, aberta em novembro passado, reúne 57 artistas de todas as regiões do país, selecionados a partir de uma convocatória aberta, que teve nada menos que 980 inscrições.

“Nós queríamos uma primeira exposição que fosse um retrato do Brasil”, contou Tania, na área externa da instituição onde funciona um café, em uma ensolarada tarde de dezembro. O edital previa que fossem escolhidos 20 trabalhos, sendo que o cachê para cada artista seria R$ 1.500 e a verba para cada projeto de até R$ 8 mil. “Como recebemos projetos com valores muito abaixo do limite, conseguimos ampliar a seleção e, por isso, chegamos a 57. A mostra segue até 15 de março. A curadoria é do mesmo grupo que repensou o espaço e a curadora Aliã Wamiri Guajajara.

Além dos selecionados pelo edital, em uma parceria com o Ateliê Gaia, um espaço de produção coletiva junto ao Museu Bispo do Rosário, também estão exibidos artistas que são ou foram usuários dos serviços de saúde mental. 

Como toda exposição organizada a partir de uma convocatória, a que inaugura a Casa Brasil é um mescla de nomes pouco conhecidos e outros já inseridos no circuito, caso de PH Costa, Novíssimo Edgar, Mãe Celina de Xangô, Yoko Nishio e Renan Soares, que apresenta a escultura “Monumento aos Grandes Vultos”, que foi exibida na mostra Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, no Sesc Belenzinho, em 2023, e depois seguiu pelo país em vários espaços.

Quem acompanhava a Casa França-Brasil percebe a radical alteração de rota que essa coletiva inaugura. Diversidade, experimentação, e inclusão são palavras-chave na cena contemporânea, mas o prédio neoclássico ainda não tinha chegado lá com a radicalidade necessária. Agora chegou, especialmente por apresentar uma produção ainda fora do mercado.

Trabalhos simples como “Mãe Cansada”, de Hevelin Costa, composto por uma camisa com a frase do título da obra e uma foto da artista deitada à frente da paisagem do Rio, é um gatilho para uma ação na mostra que realizou sessões de massagem às mães que trouxeram seus filhos. 

Já Andrey Guaianá Zignnatto, outro nome já reconhecido na cena e no mercado, apresenta a instalação “9 de julho de 1562”, que em 463 telas aborda o apagamento do Cerco de Piratininga, quando o povo Guaianá se rebelou contra o colonialismo liderado pelos jesuítas em São Paulo.

 Ambas as obras, além de uma ótima organização formal, estão sintonizadas a debates atuais, em torno de temas feministas e decoloniais, que fazem tremer a turma das guerras culturais.

Além da coletiva, a Casa Brasil recebe a instalação do artista Arthur Chaves “Tarde do Fauno”, com curadoria de Cadu, que é constituída por materiais têxteis, em que produz superfícies e volumes, que se relacionam com o território ao redor, memórias pessoais e a História da Arte. 

O jornalista Fabio Cypriano viajou a convite da Casa Brasil

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