Desafio urbano para o centro de São Paulo

Desafio urbano para o centro de São Paulo

A cidade de São Paulo ganha no próximo mês de junho um novo Sesc. O que já é motivo de celebração, pelo conhecido impacto social e cultural desses centros, adquire uma importância ainda maior por tratar-se do primeiro a fazer parte de um plano urbanístico. Construído no Parque Dom Pedro II, o equipamento intervém direta e ativamente em uma área que se configura como um dos maiores desafios urbanos da cidade. É uma proposta na contramão de décadas de esgarçamento do tecido social e degradação urbana em função de uma política rodoviarista intensiva, que encontrou seu auge no período dos anos de chumbo da ditadura militar, entre 1968 e 1974. Até hoje configura um nó viário de soluções improvisadas, desconfigurando o centro histórico da cidade e impedindo – concreta e simbolicamente – uma integração produtiva, social e urbana de tantos territórios da metrópole. 

Derivado do Plano Urbanístico Parque Dom Pedro II, desenvolvido entre 2010 e 2012 por uma equipe multidisciplinar (que ficou majoritariamente inconcluso), o projeto desenvolvido para este espaço – a 26ª unidade do Sesc na grande São Paulo – busca soluções para as circunstâncias concretas do lugar em que se situa. O novo prédio está sendo construído no lugar do antigo São Vito, uma das maiores construções habitacionais da América Latina que se tornou conhecida como “Treme-Treme” por causa dos tremores ocasionados pela passagem de veículos pesados na Avenida do Estado, e terminou sendo demolida em 2011. O entorno segue desordenado e hostil. 

Ao invés de se intimidar, o Sesc Parque Dom Pedro II se abre para a paisagem, instaura um ambicioso programa de arborização e paisagismo (que prolonga ao norte a mancha verde já existente na parte mais ao sul do parque). A nova construção ecoa a importância do vizinho Rio Tamanduateí – o terceiro maior da cidade e que agora foi reduzido a uma canalização desastrosa –, procurando conectar, com suas fachadas de vidro e chapas perfuradas, os vários pontos da cidade que acabaram seccionados pelo interesse especulativo. 

“O projeto tinha três premissas fundamentais”, sintetiza Fernanda Barbara, coordenadora da obra ao lado de Fabio Valentim e sócia do Una Barbara e Valentim — escritório que dá continuidade ao trabalho iniciado no Una Arquitetos, autor da proposta que nasceu no âmbito do Plano Urbanístico Parque Dom Pedro II. A primeira era “gerar conexões urbanas”. A segunda meta era propor uma construção que dissesse: “estamos no centro histórico, estamos do lado do rio, estamos no lugar onde nasceu a cidade”. Criar um edifício que fosse uma passagem, que olhasse para a cidade, que fizesse dela seu grande cenário. E o terceiro desafio seria resolver um programa muito extenso num terreno relativamente pequeno. 

Assentado na ponta norte do Parque, numa área triangular cedida ao Sesc pela Câmara dos Vereadores, o novo prédio se ergue sem fachada principal, sem fundos, sem hierarquia entre suas quatro entradas. E sem grades. Contraria assim a lógica fragmentada que marca a região e que há décadas impede a conexão de lugares de referência como o Mercado Municipal, a zona cerealista, a 25 de março, a região da Sé (colina histórica) e o Brás. 

Outro recurso integrador do projeto é a opção pela criação de jardins nos vários pisos – criando diferentes pontos de vista –, pistas circundantes e fachadas em material translúcido, que permitem visualizar a paisagem urbana, gerando referências e transformando o prédio – no período noturno – numa espécie de lanterna que ilumina e ativa o entorno. De dia, o corpo central parece flutuar numa volumetria delicada — planos triangulares que se sobrepõem em leve torção — e contrasta com o bloco massivo que abriga o teatro e a piscina coberta, que emerge acima dele.

A construção foi iniciada há mais de cinco anos, em plena pandemia e envolveu mais de 33 projetos e consultorias. Uma série de soluções inovadoras foram incorporadas, com destaque para uma coerência entre modernização arquitetônica e soluções de menor impacto ambiental. Surpreende, por exemplo, o fato de não ter sido programado um estacionamento para o público – decisão conceitual e técnica, já que não faria sentido construir no subsolo de uma região alagável, a antiga Várzea do Carmo. O acesso ao novo Sesc será prioritariamente por transporte público e o prédio conta também com um generoso bicicletário.  

Pela mesma razão, o edifício se situa imperceptivelmente 12 metros acima do nível da rua. E possui um sistema integrado de coleta de chuva e  irrigação por capilaridade dos jardins construídos sobre laje, além de uma ênfase dada à ventilação natural, soluções que ajudam a explicar as várias premiações que o projeto vem recebendo antes mesmo de concluído. O último deles foi o prêmio de construção sustentável da Holcim Foundation, na categoria América Latina, em 2025. O prédio conta também com a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), uma das mais reconhecidas internacionalmente na área.

Do ponto de vista do programa arquitetônico, o edifício contempla os principais elementos característicos das outras unidades do Sesc, com um perfil que combina cultura e esportes. É circundado por um espelho d’água, que remete àquele que recorta a sala principal da unidade da Pompéia; conta com uma grande Comedoria, pista de corrida à volta e quadra poliesportiva. A piscina coberta tem uma claraboia que se abre para fora. 

Construído sem vigas, com espaços polivalentes, biblioteca e um conjunto de oficinas destinadas a diferentes trabalhos (da dança e movimentos corporais a ateliês ligados a estamparia e gravura em tecidos – ecoando a proximidade de lugares como a 25 de Março e a Feira da Madrugada, no Brás), a unidade deve receber uma série de exposições. A agenda ainda está sendo finalizada, mas já se sabe que a exposição inaugural será “As Sete Voltas do Tamanduateí”, um resgate histórico, artístico e antropológico sobre o território. Com curadoria de Veronica Stigger e Eduardo Sterzi, a mostra revisita, homenageia e redescobre traços da cidade e desse rio que um dia foi amplo e caudaloso, como se pode ver por exemplo na pintura “Inundação da Várzea do Carmo”, feita por Benedito Calixto em 1892. 

Uma grande estrela do novo Sesc também é o teatro, que conta com amplos recursos cênicos e arquitetônicos. Multifuncional, ele se adapta às várias composições, sendo um espaço adequado para receber montagens contemporâneas, que não precisam de um teatro frontal. As cadeiras são movíveis e o fundo do palco se abre para a cidade. Não faltam pequenos toques convidativos – como a pipoca a R$ 1, o picolé a R$ 1,50 – que aproximam o grande público. 

Ainda é cedo para saber o trânsito real de pessoas pela unidade, mas segundo o site da Holcim, estima-se um público diário de cerca de 5 mil pessoas. Tampouco é previsível o efeito de uma unidade do Sesc num território tão complexo e fraturado, do ponto de vista social e urbano, como este. No entanto, Fernanda evoca Danilo Santos Miranda, diretor do Sesc entre 1984 e 2023, quando faleceu e foi substituído por Luiz Galina, “que pegou o projeto com amor”. Quando perguntado por alguém da Prefeitura: “esse lugar é muito difícil, o que vocês vão fazer aqui?”, Miranda teria respondido: “É porque é difícil que queremos estar”.

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