BICHO SOLTO – Exposição no espaço público do artista Ale Jordão

Bicho Solto transforma o espaço urbano em território de encontro, imaginação e convivência. Ao longo do percurso, esculturas em metal, neon e LED ocupam a paisagem como sinais luminosos que convidam o público a olhar a cidade de outra forma.

Partindo da imagem da gaiola, símbolo histórico de contenção, a exposição propõe uma reflexão sobre liberdade, ecossistemas urbanos e nossa relação com os espaços que habitamos. Entre animais, palavras e símbolos, as obras sugerem que a cidade também é um organismo vivo: um lugar compartilhado por pessoas, natureza e múltiplas formas de existência.

Bicho Solto propõe reimaginar a rua, transformar passagem em permanência, encontro e espaço urbano em experiência.

BICHO SOLTO

Exposição no espaço público

Artista ALE JORDÃO

Texto e curadoria de Baixo Ribeiro

A Exposição

Realizada em trecho requalificado da Alameda Rio Claro, Bicho Solto apresenta dez esculturas em metal, parte delas iluminadas por neon e LED, concebidas especificamente para o espaço urbano. A mostra ocupa uma área transformada em passeio arborizado e prioritariamente para pedestres, onde o trânsito de automóveis foi restringido, permitindo que a rua assumisse efetivamente a condição de praça.

As obras distribuem-se ao longo do percurso como marcos luminosos que reorganizam a percepção do lugar. A iluminação não é elemento acessório, mas estrutura constitutiva das peças — com muitas tonalidades de cor e atmosfera onírica,  características da pesquisa de Ale Jordão.

Grande parte das esculturas tem como referência a imagem da gaiola. Símbolo histórico de contenção e domínio, a gaiola aparece aqui como objeto deslocado no tempo — vestígio de uma mentalidade superada. Em uma contemporaneidade que reconhece os animais como parte integrante do ecossistema urbano, sua presença adquire dimensão crítica.

A exposição sugere, inicialmente, um alerta ecológico: a cidade é também habitat. Animais — visíveis e invisíveis — compõem o equilíbrio ambiental e influenciam diretamente a saúde pública. A eliminação de espécies pode desestabilizar cadeias naturais complexas.

Entretanto, a metáfora se amplia. A cidade pode tornar-se, ela própria, uma gaiola. Quando descuidada, temida ou abandonada, converte-se em espaço de retração e medo. Ao transformar a rua em parque temporário iluminado, Bicho Solto propõe o gesto inverso: da clausura à abertura, da contenção à convivência.

O Artista – Ale Jordão

Ale Jordão desenvolve sua trajetória na intersecção entre arte, design e espaço urbano. Formado em Artes na FAAP e com estudos em design na Domus Academy de Milão, sua prática articula escultura, mobiliário e iluminação em um campo expandido onde função e poética se contaminam mutuamente.

Seu trabalho transita com naturalidade entre objeto escultórico e objeto utilizável. Uma escultura pode tornar-se banco; um elemento de iluminação pode assumir presença arquitetônica; um mobiliário pode operar como intervenção artística. Essa zona híbrida constitui o núcleo de sua pesquisa.

Embora não provenha do grafite, sua produção é profundamente urbana. Ale Jordão compreende o espaço público como lugar privilegiado da arte — não apenas como cenário, mas como ambiente de convivência real, onde a obra é vista e vivida por públicos diversos, especializados ou não.

Sua investigação com a luz é especialmente singular. Mais do que iluminar, o artista desenha com luz. No neon — filamentos de vidro preenchidos por gases como neônio ou argônio — trabalha o vidro como um desenhista trabalha o traço no papel, moldando curvas, linhas e signos cromáticos.

Nos LEDs, especialmente em fitas flexíveis, cria emaranhados luminosos que ora assumem configurações abstratas, ora evocam grafismos e signos urbanos inspirados na tradição dos antigos letreiros de cidade. Letras e palavras dissolvem-se em composições que oscilam entre legibilidade e abstração, instaurando uma escrita luminosa no espaço.

As Obras

As esculturas de Bicho Solto possuem caráter temporário e foram concebidas para ocupar nichos especialmente preparados ao longo da Alameda Rio Claro. Essa condição provisória reforça o entendimento da exposição como gesto urbano: uma intervenção que ativa o espaço sem cristalizá-lo em monumento permanente.

O conjunto é composto por 11 obras, sendo 6 iluminadas e 5 esculturas em metal com tratamentos luminescentes.

Entre as peças com pintura fluorescente destacam-se GAIOLA VER e GAIOLA PAZ, cuja superfície reage à luz, intensificando o contraste entre contenção formal e vibração cromática.

As esculturas MINHOCÃO, GAMBÁ e CAPIVARA emulam placas de trânsito e recebem acabamento com material reflexivo, aproximando-se visualmente da sinalização urbana. Ao apropriar-se desse vocabulário, o artista desloca códigos de advertência e orientação para o campo simbólico, inserindo a fauna urbana no imaginário da mobilidade e da circulação.

A obra POSTE substitui o bulbo convencional de iluminação pública pela palavra “LUZ”, escrita em neon. O dispositivo funcional converte-se em linguagem: a infraestrutura urbana transforma-se em enunciado.

Já ARMADILHA, ARAPUCA e GAIOLA-TOTEM são esculturas iluminadas por emaranhados multicoloridos de LED, nas quais a luz deixa de ser fonte difusa e assume caráter gráfico, quase caligráfico, expandindo a pesquisa de Ale Jordão sobre o desenho luminoso no espaço.

Outro elemento vertical, o poste VULNERABILIDADE, opera como estandarte luminoso, explicitando no próprio título a dimensão crítica da exposição.

O conjunto inclui ainda uma peça móvel, o CARRO-BANCA, inspirada nas tradicionais bancas de jornal. Nela, jornais e revistas são substituídos por símbolos iluminados, sugerindo a substituição da informação impressa por signos visuais e luminosos — metáfora da transformação das linguagens no espaço urbano contemporâneo.

Tomadas em conjunto, as obras estabelecem um campo de tensão entre aprisionamento e abertura, advertência e acolhimento, infraestrutura e imaginação. Inseridas na rua, não apenas ocupam o espaço: reconfiguram-no simbolicamente, convidando o público a experimentar a cidade como território vivo e partilhado.

O Curador – Baixo Ribeiro

A curadoria de Baixo Ribeiro fundamenta-se na defesa da arte como experiência compartilhada. Desde os anos 1980 e 1990, esteve envolvido em processos de reocupação de áreas urbanas degradadas, articulando artistas e agentes da cultura urbana.

Com a criação da Galeria Choque Cultural, consolidou um programa voltado à promoção de artistas que concebem a arte para além dos espaços institucionais. Ao longo de 25 anos, sua prática curatorial desloca a obra do confinamento museológico para a rua, a escola e o território cotidiano.

A partir dos anos 2000, sua pesquisa amplia-se para a ideia de equipar o espaço público: compreender que beleza, infraestrutura e conectividade geram pertencimento. Espaços cuidados são ocupados; espaços degradados produzem retração. A intervenção artística torna-se ferramenta de reversão de ciclos urbanos negativos.

Nas palavras do curador:

“A exposição nasce da convicção de que a arte deve circular onde a vida acontece. Museus e galerias permanecem relevantes, mas não exclusivos.”

“Em Bicho Solto, essa visão encontra síntese exemplar. Ao instalar esculturas luminosas ao longo da Alameda Rio Claro, o artista Ale Jordão reafirma que a cidade pode ser continuamente reinventada por meio de ações sensíveis e estruturais.”

“A gaiola, enquanto metáfora, opera em dupla direção: alerta para o equilíbrio ecológico e questiona o risco de confinamento simbólico que a própria cidade pode impor. A resposta apresentada é concreta e visível — transformar a rua em praça, a passagem em permanência, o medo em convivência.”

“Penso a cidade como um projeto colaborativo em que a diversidade deve falar mais alto.”