Cianotipia e bordado contemporâneo convergem na criação de narrativas visuais orgânicas

A artista visual Ana Tild une processos fotográficos históricos e intervenções com linha para explorar temas ligados ao corpo e à espiritualidade.

Heranças familiares frequentemente pavimentam o terreno para o desenvolvimento criativo. Para a artista visual Ana Tild, essa relação com o universo das artes teve início ainda na infância, no estado do Piauí. Filha de uma professora de Educação Artística, o fazer manual sempre integrou sua rotina doméstica através do artesanato e da pintura. Investindo na formação técnica ao longo dos anos, os estudos transitaram pela pintura a óleo e pela aquarela, guiados inicialmente pela professora Tetê Dias Leite e, mais tarde, pelo professor Alarcão. Durante essas investigações cromáticas sobre a técnica da aquarela, a intensidade característica do azul da Prússia chamou sua atenção de forma definitiva. Curiosidade e pesquisa sobre essa tonalidade profunda levaram à descoberta da cianotipia, um processo fotográfico artesanal que rapidamente se transformou em sua principal linguagem expressiva.

Intervenções têxteis e a luz como ferramenta de criação

Processos alternativos exigem experimentação contínua para romper com os formatos tradicionais. Buscando aprimorar sua técnica, os estudos foram aprofundados no Lab Clube, sob a mentoria dos professores Alex Topini e Fernanda Autoun. Atualmente, a produção transita com fluidez entre suportes como papel e tecido, utilizando a luz para marcar fisicamente as superfícies com os vestígios de folhas, ramos e flores. Ocorreu também a inserção de um dos traços mais marcantes e autorais do ateliê: a fusão da cianotipia com o bordado. Linhas e agulhas ultrapassam a função de mero acabamento para atuarem diretamente como desenho, acrescentando cor, anatomia, textura e volume às imagens fotográficas. Natureza, tempo, acaso e o gesto manual atuam de maneira simbiótica na finalização de cada tela.

Coleções orgânicas e a investigação da biologia humana

Simbologias ligadas à vida, à espiritualidade e ao corpo humano guiam as principais séries criadas sob essa técnica híbrida. Projetada para o público em 2023, a coleção “Pulsar” integrou a mostra coletiva “Artistas em Processo”, sediada no Estúdio Dezenove, articulando sentimentos como amor, compaixão e esperança através de corações e formas orgânicas. Outras vertentes de pesquisa ganham densidade em obras como “Ventre”, onde o bordado dialoga intensamente com a ideia de origem, e “Neuroplasticidade”, na qual a linguagem fotográfica se desloca para um objeto têxtil, utilizando as costuras para sugerir conexões neurais complexas. Representações gráficas da botânica também brilham intensamente nos contatos precisos entre luz e pigmento azul presentes nas coleções “Bougainville”, “Cacto” e “Fé”.

Democratização cultural e o ensino das artes fotográficas

Espaços de exibição não precisam estar restritos aos limites das galerias tradicionais. Cabeleireira por profissão, a criadora utiliza seu próprio salão de beleza como um canal de exposição permanente, aproximando a arte do cotidiano de um público diversificado. Iniciativas educativas também reforçam esse compromisso social, materializando-se em oficinas de cianotipia ministradas para crianças em escolas.

Nesses laboratórios práticos, o contato com a luz e a botânica converte-se em um poderoso instrumento de descoberta infantil. Ultrapassando as fronteiras nacionais, o engajamento com essa arte histórica mantém-se vivo através da participação anual no World Cyanotype Day, celebrando a técnica ao lado de criadores de diversas partes do globo. Toda essa documentação visual em tons de azul e as novas intervenções bordadas podem ser conferidas no perfil oficial do Instagram [@Ana Tild].