As materialidades do cuidado e a investigação territorial na arte contemporânea

As materialidades do cuidado e a investigação territorial na arte contemporânea

Uma prática artística multidisciplinar que transforma a memória, os arquivos e o deslocamento territorial em experimentações visuais, instalações e tecnologia.

A investigação visual sobre as marcas do tempo muitas vezes começa na observação direta da natureza e se expande para a complexidade das relações humanas. No início dos anos 1990, o ponto de partida para a artista visual e pesquisadora Neide Martinho era a fricção natural das superfícies, trabalhando com cascas de árvores mortas para transferir para a pintura suas fissuras e deformações. Com o passar dos anos, essa pesquisa sobre proteção e desgaste deslocou-se da casca orgânica para a pele, os arquivos familiares, os objetos colecionados e o próprio espaço. A superfície passou a ser compreendida como um grande arquivo onde o tempo inscreve tensões e afetos, permitindo que a produção atual articule corpo, memória e as chamadas “materialidades do cuidado” — tecnologias de sobrevivência que sustentam, mas que também podem provocar apagamentos e rupturas.

A multiplicidade de meios e o pensamento acadêmico

Para dar conta dessa densidade conceitual, a produção recusa a restrição a uma única técnica. A prática expandida transita de maneira fluida entre a pintura, a fotografia, o desenho, a instalação, o vídeo, a escultura e as experimentações com inteligência artificial e impressão 3D. Os materiais escolhidos para cada projeto variam desde papel machê, látex, juta e crochê até alumínio, vergalhões e elementos vegetais. Toda essa experimentação matérica é fundamentada por uma sólida base acadêmica, que inclui doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e atuação como professora associada do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense (UFF). No ambiente universitário, a educação artística atua como uma extensão do ateliê, promovendo encontros de repertórios e estimulando a autonomia crítica dos alunos em diálogo com pensadores como Ailton Krenak, Donna Haraway e Leda Maria Martins.

O impacto imersivo das residências artísticas

Nos últimos anos, o deslocamento geográfico tornou-se um motor fundamental para o avanço das pesquisas visuais. Em março de 2026, a participação na 7ª Residência Artística Volante, sediada na Cidade Velha, em Belém do Pará, ocorreu sob um formato inovador de telepresença. A partir do envio de imagens, áudios e relatos por outros artistas, originou-se a pesquisa “Teletransporte afetivo: desenho etnográfico das presenças indiretas”, que uniu a inteligência artificial aos saberes manuais do crochê e da juta. Ainda no mesmo ano, a imersão na 3ª Residência Artística NACO, em Olhos D’Água, Goiás, proporcionou um contato direto e físico com o Cerrado, resultando no desenvolvimento de vídeos e em uma instalação escultórica composta por cabaças e elementos endêmicos do território.

Os próximos deslocamentos e circuitos de exposição

O mapeamento de novos territórios e atritos culturais continuará ditando o ritmo criativo nos próximos anos. Para o início de 2027, está confirmada a imersão na 9ª Residência Artística Volante, que ocorrerá no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, aprofundando o diálogo com a arqueologia e a ancestralidade. Na sequência, a 10ª edição do mesmo projeto, prevista para 2028, levará a pesquisa para o extremo inverno da Patagônia argentina, testando os limites do corpo e da sobrevivência em uma nova escala geográfica. Simultaneamente aos deslocamentos, o circuito expositivo receberá as mostras “HO — Caixas: do museu ao mundo” e “A Invenção do Outro em Mim”, ambas responsáveis por tensionar a identidade e a alteridade na arte contemporânea. Todo o processo das residências, as novas instalações e as reflexões sobre o cuidado podem ser acompanhados através do perfil no Instagram [@com_neide].

Pesquisador cultural. Dedica-se a mapear as novas vozes que passam a integrar o portfólio da Revista Creator. Apresenta análises detalhadas sobre a trajetória, a técnica e a poética de criadores que despontam no cenário atual.
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