Retorno à aquarela e ao bordado sobre papel ressignifica trajetória entre a medicina e as artes visuais

A artista visual e médica Adriana Elisa Moreira resgata sua trajetória criativa unindo aquarela e bordado sobre papel em obras de forte sensibilidade humana.

Trajetórias profissionais que parecem excludentes muitas vezes se complementam de formas inesperadas. Para a artista visual e médica Adriana Elisa Moreira, a relação com o universo criativo antecede em muito o ingresso na faculdade de Medicina, ocorrido há 21 anos. Pintando de forma intuitiva e autodidata desde a juventude, a decisão entre seguir a carreira médica ou ingressar nas Belas Artes pendeu inicialmente para a ciência. Contudo, o fazer criativo nunca desapareceu por completo. Durante a formação acadêmica, a habilidade com os traços transformava conteúdos médicos complexos em esquemas visuais detalhados para facilitar o estudo. Essa aptidão rendeu-lhe entre os colegas o apelido de “Netter”, em referência ao célebre ilustrador de livros de anatomia humana Frank H. Netter, provando que a arte continuava encontrando frestas para existir mesmo diante das exigências de uma rotina altamente técnica.

Isolamento impulsiona a redescoberta e a criação do ateliê íntimo

Rotinas exaustivas de plantões e especializações mantiveram os pincéis adormecidos durante anos, mas o cenário de isolamento imposto pela pandemia em 2020 provocou um questionamento interno inadiável sobre a ausência da arte em seu cotidiano. Respondendo a essa inquietação, o ano de 2021 marcou o reinício prático através de um curso online de aquarela com a artista Lu Simão. Conciliando o aprendizado com a vida médica, esse processo de retomada pavimentou o surgimento do seu “quarto-atelier”. Mais do que um espaço físico isolado, o ambiente traduz a proximidade íntima e diária com tintas, linhas e papéis. Banhado por música — elemento ritualístico que a acompanha desde as primeiras criações —, o cômodo representa a recuperação de um território pessoal de liberdade, longe das amarras da perfeição acadêmica.

Transparência cromática dialoga com a textura do bordado

Água e pigmento guiam a técnica atual desenvolvida no ateliê, pautada pela transparência e pela imprevisibilidade característica da aquarela. Essa leveza fluida dialoga diretamente com intervenções de bordado sobre papel, criando texturas, contrastes e conexões táteis nas obras. Nomes consagrados da arte nacional alimentam esse processo de pesquisa contínua. A força expressiva da costura bebe na fonte de Arthur Bispo do Rosário, enquanto as pinceladas aquareladas encontram referências no trabalho de criadoras como Patrícia Carparelli, Amanda Jacobina e de sua própria mentora, Lu Simão. Viagens, visitas a museus e a observação minuciosa do cotidiano fornecem a base de inspiração que resulta em telas abstratas, retratos figurativos e peças carregadas de afeto.

Sensibilidade clínica e poética visual caminham lado a lado

Prática médica e percepção artística hoje caminham juntas, sem a necessidade de competir por protagonismo. A vivência na Medicina afiou o olhar para os detalhes, a escuta atenta e a compreensão das histórias humanas, elementos que atualmente transbordam para as telas. Descobrindo continuamente sua própria linguagem visual, as produções sob a assinatura da marca Adriana Elisa Moreira provam que a menina que pintava intuitivamente nunca foi embora, apenas aguardou o momento exato para reivindicar seu espaço de contemplação.

Toda essa jornada de redescoberta técnica e os estudos híbridos entre aquarela e bordado podem ser acompanhados através do perfil oficial da artista no Instagram [@quartoatelier], que conta com acervo fotográfico documentado por Rebeca Penna Firme e Pedro Luiz Moreira.