A artista Adriana Schaefer Bellini, à frente da marca Studio.Alfa, investiga a imprevisibilidade do fogo e os limites da modelagem na cerâmica autoral.
Trajetórias artísticas marcadas pela experimentação encontram no imprevisto o seu maior trunfo. À frente da marca Studio.Alfa – Cerâmicas e Criações, a artista Adriana Schaefer Bellini constrói uma poética visual pautada pela investigação ininterrupta dos materiais e pelo diálogo direto com a força do fogo. A caminhada com a argila, iniciada em 2022, rapidamente ganhou contornos de uma pesquisa profunda e itinerante. Em 2023, uma vivência intensiva na tradicional Escola de Cerâmica de La Bisbal, na Espanha, marcou o aprofundamento técnico e o compromisso com o fazer artesanal. Essa base teórica e prática é constantemente lapidada no Brasil através de uma disciplina semanal no ateliê Kátia Schames, em Porto Alegre, sob a orientação da professora Maya, da Puruma Cerâmicas, somada a imersões de sensibilidade e ritmo de produção realizadas no Espírito Santo com Flávia Pircher.
Escala, leveza e a exploração da matéria-prima
Tridimensionalidade e volume ditam as regras na construção do acervo. O estudo das proporções espaciais foi aprofundado através da modelagem figurativa de cabeças com Israel Kislanski, do desenvolvimento de vasos de grande porte com Carolina Delleva e da criação de mobiliário cerâmico com Re Jin Lee. Em paralelo ao domínio da escala, a pesquisa transita pela delicadeza das massas, expandindo as fronteiras da matéria ao incorporar experimentos com paper clay e paper porcelana. Essa junção cuidadosa entre o rigor técnico da modelagem estrutural e o caráter orgânico das superfícies resulta em objetos que convidam não apenas ao olhar contemplativo, mas também à experiência tátil no cotidiano.
Fogo como coautor e as atmosferas de redução
Processos de queima alternativa transformaram-se no verdadeiro núcleo de identidade visual da marca. Longe de enxergar o forno apenas como uma ferramenta de finalização, a artista eleva a chama ao status de coautora da obra. Essa entrega atinge pontos de incerteza onde a sobreposição de materiais, óxidos e misturas se torna tão intuitiva que foge do controle absoluto, preparando o terreno para texturas irrepetíveis. O aperfeiçoamento dessa alquimia contou com desdobramentos internacionais, como a vivência no Chile no ateliê Ceramistas de Reñaca (organizada pela Escola Alma), e workshops focados em atmosferas de redução. O estudo da técnica de copper matte, realizado no Ateliê Ibirubá, permitiu à criadora dominar a aplicação de tons metálicos, iridescências e marcas dramáticas nos utilitários e esculturas.
Simbiose botânica e o manifesto contra a padronização
Reconhecimento institucional recente validou a maturidade técnica dessa jornada do barro. Ao integrar uma exposição coletiva de temática botânica, a ceramista apresentou uma escultura autoral dedicada ao conceito de simbiose. A obra explorou a interdependência dos ecossistemas ao unir estruturas externas de folhas secas e raízes à emergência de musgos, líquens e cogumelos, simbolizando que na natureza o fim é sempre o início de um novo ciclo biológico.
Ao recusar fórmulas prontas e abraçar o risco de forma destemida, a produção contrapõe-se à padronização, garantindo que o imprevisível atue como a energia vital de cada escultura. O desenvolvimento dessas queimas orgânicas e o acervo completo podem ser acompanhados através do canal oficial da marca no Instagram [@alfabyadri].


