O artista baiano Quinho Castro une pintura intuitiva e esculturas feitas com fragmentos de ferro-velho para investigar os ciclos da experiência humana.
Desconstrução estética e curiosidade constante marcam o percurso do artista visual Quinho Castro. O primeiro contato com os traços ocorreu ainda em 1985, aos oito anos de idade, sob a influência do professor de arte Jorge Pô. A partir daquele momento, a educação artística desenvolveu-se longe dos moldes acadêmicos convencionais. Movido pela necessidade de compreender o mundo ao seu redor, o criador baiano consumiu cursos em revistas de banca de jornal, dialogou com profissionais experientes e transformou seu ateliê em um verdadeiro laboratório empírico.
No início da carreira, a produção concentrava-se na reprodução rigorosa de naturezas-mortas, mas a obrigação de espelhar o mundo exterior rapidamente deixou de ser suficiente. A transição para a linguagem atual ocorreu quando o desenho deixou de ser uma ferramenta para retratar objetos exatos e passou a atuar como um mecanismo para descobrir emoções, permitindo que a cor e o gesto assumissem rotas libertárias.
Hibridismo técnico e o passado preservado no descarte
Fronteiras técnicas perdem o sentido diante da urgência de expressão no ateliê. A produção transita de forma fluida e complementar entre a pintura, o desenho e a escultura, permitindo que tinta a óleo, acrílica, spray, carvão e giz seco convivam na mesma superfície. Os materiais são intensamente misturados, sobrepostos, cobertos, riscados e revelados repetidas vezes. Quando a criação salta da tela para a tridimensionalidade, a pesquisa volta-se para oficinas e ferros-velhos. O olhar capta fragmentos e objetos descartados que perderam sua função utilitária original, mas que ainda conservam fortes marcas do tempo e do uso. Ao incorporar esses resíduos a novas composições escultóricas, o passado da matéria não é apagado. O descarte ganha um novo começo, abrigando interrupções, acidentes e imperfeições como elementos poéticos fundamentais da obra.
A herança musical e a liberdade do processo intuitivo
Ritmo, silêncio e improvisação ditam o compasso das composições visuais, uma herança direta da convivência com seu pai, o músico Beroaldo Soares. Mesmo utilizando referências sólidas de nomes como Anselm Kiefer, Israel Kislansky e Fabienne Verdier, é na dinâmica musical que a pincelada encontra sua maior força. As cores e linhas avançam, recuam, interrompem-se e criam respiros estruturais de maneira análoga a uma partitura. Esse processo aberto e inteiramente intuitivo dispensa roteiros pré-definidos. Muitas vezes, a forma surge na tela antes mesmo de poder ser nomeada, carregando a energia do acaso. Ao deixar essas lacunas interpretativas, a obra convida o público a projetar suas próprias vivências, garantindo que o ciclo criativo só se encerre no momento em que a criação encontra o olhar de quem a observa.
Acervo consolidado e o planejamento para o circuito de Salvador
Séries emblemáticas como Caroço de Abacate, Kuadrados, Pétalas Catástrofe e Faust ajudaram a consolidar a identidade visual desse percurso. Atualmente, a investigação expande-se através de trabalhos recentes, incluindo as coleções Parabrisa, Azulejos, Hieróglifos e Afins. O desdobramento de toda essa pesquisa estética sobre transformação e permanência humana ganhará os espaços institucionais na exposição inédita “DANTES”, prevista para integrar o calendário cultural de Salvador no ano de 2027.
Com curadoria assinada por Eliana Oubiña, produtora cultural e CEO da Editora Pé de Pitanga, o projeto expográfico investiga os ciclos da vida e aquilo que permanece intocado dentro de cada indivíduo. A evolução contínua das telas e os bastidores das esculturas estão documentados no canal oficial do artista no Instagram [@quinho.art], que conta com registros fotográficos assinados por Marcela Berger.



