O que a geração Z busca ao colecionar arte
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Entre jovens colecionadores a geração Z aparece com um peso crescente nas compras de arte e ajuda a revelar novas formas de se aproximar das obras

Jovens colecionadores comprando obras de arte.

A presença de compradores mais jovens no mercado de arte ganhou outra dimensão nos últimos anos, à medida que uma geração ainda no início da vida adulta passou a ocupar um espaço relevante entre os colecionadores de alto patrimônio. Esse movimento chama a atenção tanto pelo volume das aquisições quanto pelo contexto em que ocorre, marcado por formas cada vez mais diversas de acesso à informação, aos artistas e às obras.

É nesse contexto que os dados do relatório Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2026 permitem examinar mais de perto a participação da geração Z no mercado de arte. Além de registrar gastos expressivos com arte, esse grupo demonstra uma relação ativa com a pesquisa e a descoberta de novos artistas. Em conjunto, esses aspectos ajudam a compreender como os jovens estão construindo suas coleções e quais experiências valorizam nesse processo.

A presença dos jovens colecionadores que já aparecem nos números

Em 2025, os colecionadores de 20 a 29 anos entrevistados gastaram, em média, US$ 347 mil em obras de arte, valor 19% superior ao registrado para essa faixa etária em 2024 e mais do que o dobro da média de gastos de cada uma das demais gerações pesquisadas. Esse resultado ganha ainda mais relevância quando se observa que o número de obras adquiridas foi semelhante entre os diferentes grupos, de modo que o destaque dos jovens parece estar principalmente no preço das obras escolhidas.

Entretanto, o comportamento desses compradores está longe de ser uniforme, sobretudo quando se observam os gastos individuais. No primeiro semestre de 2026, enquanto 13% dos jovens entrevistados ultrapassaram US$ 1 milhão em aquisições, 68% investiram menos de US$ 50 mil em arte. Esses dados mostram que compras de valores muito diferentes convivem dentro da mesma geração. Nesse cenário, as transações milionárias têm um peso considerável nos resultados do levantamento, embora representem o comportamento de uma parcela mais restrita dos colecionadores.

A presença dos jovens nas negociações de maior valor também aparece quando se analisam as obras individualmente. Entre 2025 e o primeiro semestre de 2026, apenas 1% dos participantes adquiriu uma obra com preço superior a US$ 1 milhão e, desse pequeno grupo, quase metade pertencia à geração Z. Além disso, a arte correspondia, em média, a 18% do patrimônio dos jovens pesquisados. O percentual supera os 14% registrados entre millennials e integrantes da geração X, o que reforça a importância atribuída ao colecionismo entre os jovens.

O caminho até a escolha de uma obra pela geração Z

A maneira como os jovens chegam a uma obra também merece atenção, sobretudo pela autonomia que demonstram na formação de seu repertório. Entre os participantes da geração Z, 80% afirmaram realizar pesquisas próprias, moderadas ou aprofundadas antes de uma aquisição, comportamento que acompanha a ampliação do acesso a informações sobre artistas e suas produções. Nesse processo, as plataformas digitais passaram a ocupar um espaço importante, permitindo que o primeiro contato com uma obra aconteça mesmo longe das galerias e feiras de arte.

A colecionadora Audrey Ou, cuja família fundou o Rockbund Art Museum, em Xangai, oferece um exemplo dessa dinâmica. Em entrevista à Art Basel, contou que conheceu o trabalho de uma artista durante uma exposição no Noguchi Museum, em Nova York, e decidiu procurá-la por conta própria.

Enviei uma mensagem diretamente a ela pelo Instagram, visitei seu ateliê e acabei adquirindo uma obra

O interesse despertado durante a visita ao museu se prolongou nas redes sociais, aproximando a colecionadora da artista e de seu processo de criação.

A disposição para descobrir novos trabalhos também aparece entre os jovens entrevistados, que demonstraram maior abertura à aquisição de obras de artistas até então desconhecidos por eles. Essa curiosidade, entretanto, convive com diferentes formas de orientação, como mostra a experiência de Patrick Finnegan, colecionador de 29 anos que utiliza o Instagram para conhecer artistas e também trabalha com um consultor especializado. “Eu me conecto com a arte de maneira muito emocional”, contou à Artsy, ao explicar como suas preferências pessoais influenciam as decisões de compra, embora ele também leve em conta o potencial da obra como investimento.

O que os jovens escolhem colecionar

A pintura continua ocupando um lugar central entre os jovens colecionadores. No período analisado, 82% dos entrevistados da geração Z adquiriram obras de pintura. Ao mesmo tempo, o levantamento identifica um interesse crescente por diferentes linguagens, como fotografia, vídeo e arte digital, e também por peças de design e outros objetos colecionáveis. A variedade das aquisições mostra como trabalhos de naturezas distintas podem encontrar espaço em um mesmo acervo, que reflete as referências culturais de quem o constrói.

Curiosamente, essa diversidade não significa que os artigos de luxo sejam a principal porta de entrada para o colecionismo de arte. Segundo a pesquisa, a pintura está entre as categorias mais escolhidas como primeira aquisição, enquanto bolsas e tênis de luxo raramente aparecem como ponto de partida. Assim, o interesse por diferentes categorias pode se desenvolver ao longo da formação de uma coleção, à medida que novas referências passam a integrar as escolhas de seus proprietários.

A trajetória de Tia Tanna, de 25 anos, ajuda a compreender essa relação. A jovem começou a colecionar fotografias de moda e, posteriormente, ampliou seu repertório para incluir arte contemporânea e peças de alta-costura. O acervo da Tia Collection reúne obras de Issy Wood e Alia Ahmad, além de uma criação de moda emprestada ao Victoria and Albert Museum, em Londres, para uma exposição dedicada à Schiaparelli. Em entrevista à Artsy, Tanna observa que os colecionadores de sua geração transitam entre diferentes disciplinas e acrescenta que

a arte não se limita a uma única categoria.

Como a geração Z compra arte

As feiras continuam ocupando um espaço importante nas aquisições dos jovens colecionadores, já que 73% dos entrevistados da geração Z compraram obras nesses eventos. Esse percentual é inferior apenas ao registrado entre os baby boomers. As galerias também permanecem como importantes intermediárias do mercado e participaram das aquisições feitas por 87% dos entrevistados, inclusive daquelas realizadas por meio de feiras. Os resultados mostram, assim, que os jovens participam de circuitos de comercialização já consolidados, nos quais o relacionamento com profissionais do setor continua relevante.

Para galerias e artistas, a presença de compradores com menos de trinta anos também abre perspectivas para a construção de relações duradouras, uma vez que muitos desses colecionadores ainda estão desenvolvendo seus acervos. Nesse sentido, acompanhar a evolução de suas preferências e a continuidade de suas aquisições pode ajudar a compreender o papel que essa geração terá no mercado de arte nos próximos anos.


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