Atravessar um limiar é o primeiro gesto exigido pela 16ª Bienal de Curitiba. No olho do Museu Oscar Niemeyer (MON), a instalação da japonesa Chiharu Shiota envolve o visitante em uma densa trama de fios vermelhos, convertendo o espaço em uma experiência física de passagem. Mais do que apresentar o conceito da mostra, a obra sintetiza seu princípio: as fronteiras deixam de separar para se tornar lugares de encontro, tensão e transformação.
Sob a curadoria geral de Adriana Almada e Tereza de Arruda, a Bienal abandona percursos lineares e aproxima artistas de diferentes gerações, geografias e culturas em torno de questões que definem o presente. Inteligência artificial, crise climática, deslocamentos e cosmologias não ocidentais atravessam uma exposição que evita respostas fáceis. Em vez de explicar o mundo, propõe habitá-lo em sua complexidade.
A tecnologia aparece como um dos principais campos de disputa. Longe do entusiasmo ou da rejeição automática, artistas como Alessandra Bergero, Panmela Castro, Mayara Ferrão, Jaqueline Duhr, Tom Lisboa e Fernando Aidar investigam como algoritmos, inteligências artificiais e bancos de imagens remodelam identidades, afetos e narrativas históricas. Enquanto alguns exploram a produção sintética de imagens, outros revelam os apagamentos inscritos nesses sistemas, mostrando que a inteligência artificial também reproduz preconceitos, hierarquias e exclusões.
Essa discussão encontra eco em outro eixo importante da Bienal: as relações entre natureza, ciência e convivência. Giselle Beiguelman desloca o olhar para plantas consideradas invasoras e questiona quem determina o que merece permanecer na paisagem urbana. Armarinhos Teixeira torna visíveis fenômenos naturais quase imperceptíveis, enquanto Sunjeong Hwang constrói paisagens em movimento marcadas pela delicadeza e pela fragilidade ambiental. Barbara Steppe e Li Qin transformam o livro em objeto escultórico e território de circulação entre culturas. Já Froiid utiliza o futebol para discutir os processos de elitização do espaço público, contraposto ao grande painel de Fabiana Gabas Kallás, onde pintura e ciência compartilham o mesmo campo de investigação.
A presença asiática ganha protagonismo no Pavilhão da China, com curadoria de Lyu Hongrong (Windy Lyu) e Xiao Ge. Reunindo vinte artistas, o núcleo propõe pensar a terra, a memória e os materiais como organismos em permanente transformação. Em vez de idealizar uma natureza perdida, a exposição procura compreender novas formas de coexistência. O diálogo se amplia com a participação de artistas de Macau, sob curadoria de Margarida Saraiva, que investigam os efeitos da tecnologia sobre a linguagem, a identidade e a percepção. Entre reconhecimento facial, tradução automatizada e desaparecimento de idiomas, as obras reafirmam a cultura como espaço de resistência.
A dimensão política da Bienal atravessa diversos núcleos. Sob curadoria de Ferran Barenblit e Adriana Almada, Max de Esteban examina a relação entre tecnologia, capitalismo e sistemas de controle, lançando um olhar crítico sobre a economia da vigilância e a transformação da arte em ativo financeiro. Na mesma direção, Matilde Marín e Jessie Kleemann deslocam a atenção para os glaciares, o Ártico e a emergência climática, lembrando que o colapso ambiental também ameaça modos de vida e memórias coletivas.
Em Camuflagens, o curador Royce W. Smith reúne artistas que investigam aquilo que escapa ao olhar imediato. Thiago Martins de Melo aproxima corpo feminino, mito e rebeldia; Javier Calvo Sandí transforma a própria pele em cartografia das violências coloniais; Paulo Nazareth faz do deslocamento um gesto político; Mabilón Jiménez Quispe atualiza a tradição dos retablos peruanos para narrar o cotidiano contemporâneo; e Regina José Galindo expõe os mecanismos de vigilância e repressão que atravessam o continente americano.
A Bienal também ultrapassa os limites do MON. No MuMA, a mostra Pó (Polvere), com curadoria de Massimo Scaringella e Chiara Franceschini, reúne Davide Boriani, Júlia Salvetti, Matteo Mezzadri e Alberto Salvetti em um conjunto que dissolve fronteiras entre matéria e percepção. Em especial, Boriani faz do visível e do invisível, do controle e do acaso, um território de permanente instabilidade.
Ao completar três décadas de trajetória, a Bienal de Curitiba reafirma sua vocação internacional sem abrir mão das questões locais. Mais do que mapear tendências da arte contemporânea, esta edição propõe um exercício de convivência entre diferentes formas de imaginar o mundo. Em tempos marcados pela polarização e pela aceleração tecnológica, seus limiares não indicam um destino. São espaços de passagem, onde o pensamento permanece em movimento.
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