Uma coleção se constrói a partir de escolhas que, ao longo do tempo, ajudam a definir quais artistas circulam, ganham visibilidade e encontram lugar em acervos. Observar quem compra arte também permite entender para onde o mercado se move e quais preferências passam a ocupar espaço.
É nesse ponto que o Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2025, levantamento conduzido pela Arts Economics com colecionadores de alto patrimônio, oferece uma nova perspectiva. Como as edições anteriores tinham amostras majoritariamente masculinas, as comparações eram limitadas. Em 2025, porém, uma composição amostral praticamente equilibrada permitiu observar o perfil das colecionadoras com maior segurança.
A possibilidade de traçar esse perfil se torna mais relevante quando se considera que uma parcela crescente da riqueza está sob controle feminino. Segundo a Art Basel, com base em estimativa da UBS, as mulheres já controlavam mais de um terço da riqueza global ao fim de 2024. Esse crescimento também amplia a relevância das mulheres no mercado de arte. À medida que esse capital aumenta, suas preferências também podem ganhar peso no mercado.
É desse cenário, portanto, que parte a pergunta central desta matéria: as mulheres já podem ser consideradas a nova força compradora do mercado de arte?

Mulheres no mercado de arte com um perfil mais aberto ao risco
Nos últimos anos, incertezas econômicas e tensões geopolíticas têm mantido a cautela no mercado de arte. Nesse contexto, o Art Basel and UBS Art Market Report 2026, dedicado ao desempenho do setor em 2025, apontou sinais persistentes de aversão ao risco, com os preços mais altos ainda concentrados nos segmentos mais consolidados do mercado.
É justamente diante desse ambiente mais cauteloso que os dados do Survey of Global Collecting 2025 ganham relevância. Embora mais da metade dos entrevistados considerasse arriscado comprar artistas sem reputação estabelecida, 55% das mulheres afirmaram fazê-lo com frequência, ante 44% dos homens. Assim, a diferença parece estar menos na percepção do risco do que no peso que ele assume na decisão de compra.
Para Clare McAndrew, autora do levantamento, esse comportamento relativiza a ideia de que as mulheres seriam, por definição, mais avessas ao risco. Ao menos entre os entrevistados de alto patrimônio, as mulheres demonstraram maior disposição para comprar antes da consolidação da reputação de um artista. Essa disposição pode ampliar a demanda por nomes ainda em processo de reconhecimento.
Quem entra nessas coleções
Além do comportamento diante do risco, o mesmo levantamento encontrou diferenças na composição dos acervos. Em média, 49% das obras nas coleções das mulheres eram de artistas mulheres, ante 40% nas coleções dos homens. O dado não permite afirmar que exista uma escolha deliberada pelo mesmo gênero, mas mostra que, na amostra pesquisada, a presença de autoria feminina era maior nos acervos das colecionadoras.
Esse resultado se torna mais relevante à medida que cresce o peso econômico dessas compradoras. Ainda assim, o levantamento não permite atribuir a elas mudanças observadas em outras áreas do mercado. Para entender como a autoria feminina aparece fora das coleções particulares, é preciso recorrer a outro conjunto de dados.

Mais presença de mulheres no mercado de arte, mas ainda sem o mesmo peso comercial
Nas galerias, os dados mostram que a presença de artistas mulheres avançou, embora esse movimento não ocorra de maneira uniforme em todo o mercado. Segundo o Art Basel and UBS Art Market Report 2026, as artistas mulheres representaram 45% dos nomes vinculados às galerias. Naquelas dedicadas exclusivamente ao mercado primário, a representação se dividiu igualmente entre os dois gêneros.
A aproximação da paridade, contudo, não aparece da mesma maneira nos resultados comerciais. Nessas galerias do mercado primário, obras de artistas mulheres responderam por 44% das vendas em valor, enquanto no conjunto das galerias pesquisadas essa participação ficou em 37%. Dessa forma, uma presença mais equilibrada nos programas ainda não se traduz em peso financeiro equivalente.
A distância entre representação e vendas aumenta nos segmentos de maior faturamento. Entre as galerias com faturamento inferior a US$250 mil, mulheres representaram 55% dos artistas e responderam por 43% das vendas em valor, enquanto entre aquelas que movimentaram mais de US$10 milhões as participações caíram para 35% dos artistas e 27% das vendas. O principal descompasso, portanto, aparece no topo, tanto na representação quanto nas vendas.

Nos leilões, a distância permanece
Nos leilões de belas-artes realizados em 2025, também analisados pelo mesmo relatório, a diferença era ainda mais acentuada. Entre os 200 artistas com maiores vendas, apenas 11% eram mulheres, e suas obras responderam por 8% do valor negociado. Como esse grupo reúne artistas de períodos muito distintos, o número não deve ser lido isoladamente como um retrato da produção artística atual.
Quando o recorte se aproxima do presente, a distância diminui: as mulheres representaram 22% dos 200 artistas contemporâneos com maiores vendas e responderam por 15% do valor negociado. Entre os 200 artistas vivos com maiores vendas, elas corresponderam a 20% dos nomes e a 19% das vendas em valor. Ainda assim, os números permanecem distantes da paridade e mostram que o desequilíbrio não se restringe aos artistas de períodos anteriores.

Mulheres no mercado de arte: uma força ainda em formação
Considerados em conjunto, os dois levantamentos não mostram que as mulheres tenham se tornado as principais compradoras do mercado de arte. Indicam, porém, uma mudança relevante no perfil de quem coleciona, sobretudo porque essas compradoras demonstraram maior disposição para assumir determinados riscos em um momento de expansão da riqueza sob controle feminino. Esse conjunto de fatores ajuda a dimensionar a crescente influência das mulheres no mercado de arte
Esse comportamento pode ganhar importância em um mercado no qual os primeiros compradores têm papel decisivo na construção da demanda por artistas ainda pouco estabelecidos. Por isso, o potencial de reconfiguração está menos na ocupação imediata do topo do mercado e mais na ampliação do espaço para escolhas que ainda não contam com a mesma validação.
Em entrevista à Art Basel sobre o levantamento, McAndrew resumiu essa disposição ao dizer, em tradução livre, que elas sentem o medo e agem mesmo assim. Talvez seja aí que a ideia de uma “nova força compradora” encontre seu sentido mais preciso, como uma influência que ainda não se consolidou em liderança, mas começa a pesar nas escolhas que moldam o mercado.
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