O resgate da memória e da ancestralidade feminina através do tempo do bordado livre

O resgate da memória e da ancestralidade feminina através do tempo do bordado livre

Juliana Caregnato, criadora da Plural Bordado à Mão, utiliza a arte têxtil como ferramenta de reconexão pessoal, rompendo com a hiperprodutividade moderna.

As raízes na infância e o peso da hiperprodutividade

O contato inicial com os fios e as agulhas costuma ser um rito de passagem familiar. As primeiras memórias de trabalhos manuais envolvem o tricô e o ponto cruz ensinados pela avó e pela tia, acompanhando tardes passadas entre retalhos de tecido e linhas. Contudo, o amadurecimento trouxe consigo as cobranças de uma sociedade voltada para o desempenho. A pressão por formação acadêmica e sucesso profissional assumiu o protagonismo, e as agulhas foram deixadas de lado. Apesar de ter cumprido as expectativas sociais — estudando, formando-se e conquistando bons trabalhos em sua área de atuação —, o cenário interno revelava uma mulher que se sentia perdida, solitária e desconectada de sua essência.

A pandemia, a agulha e a permissão para errar

O ponto de inflexão ocorreu mais de vinte anos depois, durante o isolamento da pandemia em 2020. Sem qualquer pretensão e acreditando não possuir “viés artístico” ou paciência, a decisão de realizar um curso on-line de bordado livre mudou a rota de sua vida. O retorno à atividade manual foi inicialmente marcado pelo perfeccionismo da vida adulta: o primeiro bordado teste foi inteiramente desmanchado e refeito. Esse simples ato trouxe uma libertação. No bastidor, diferentemente das exigências do mercado corporativo, errar era permitido — representava uma segunda chance. A finalização da segunda peça, um risco de Maria Bethânia, trouxe a confiança necessária para prosseguir e a compreensão de que o artesanato exige o respeito a um tempo próprio, muito distante da urgência imposta pela sociedade hiperprodutiva de 2026.

Fundamentação teórica e a estruturação da marca

Sentindo a necessidade de construir um alicerce intelectual antes de se reconhecer como artista têxtil, iniciou-se uma profunda imersão em cursos de história da arte com ênfase em mulheres artistas, arte têxtil, marketing e simpósios sobre feminismo e arte popular. Durante esse período de estudo, as obras eram destinadas timidamente apenas a presentear amigas e familiares.

A profissionalização exigiu coragem. A virada ocorreu após uma mentoria com a artista Dea Orue (@primaverade83), que auxiliou na consolidação de sua identidade têxtil. Em agosto de 2022, o que era um resgate íntimo ganhou o mundo através da criação da marca Plural Bordado à Mão, liderada pela artesã Juliana Caregnato, momento em que passou a aceitar suas primeiras encomendas oficiais.

O bordado como instrumento de ação social e cura

O impacto da arte transbordou os limites do ateliê. A artista passou a ministrar oficinas, integrando o projeto Empoder’Arte, onde ensinou bordado livre para adolescentes em uma instituição beneficente de sua cidade. Entre as encomendas marcantes, destaca-se o minucioso trabalho de bordar um vestido de noiva. O fazer manual devolveu a Juliana a mesma curiosidade sonhadora da infância, aliviando o peso da busca pela perfeição e reconectando-a com as avós que já haviam partido. Bordar, para a Plural Bordado à Mão, é fundamentalmente um ato de resgate: de si mesma, das memórias das mulheres de sua família e do afeto daqueles que valorizam o tempo e o respeito embutidos no artesanato. O portfólio completo pode ser acompanhado através do perfil no Instagram [@pluralartesanias].

A marca integra o quadro de expositores fixos da Feira Criativa de Nova Prata (RS), uma iniciativa independente de artesãos locais, com participação destacada desde abril de 2025. [ fotografia: Rafaela Ribeiro; Fotografia Singular]

Pesquisador cultural. Dedica-se a mapear as novas vozes que passam a integrar o portfólio da Revista Creator. Apresenta análises detalhadas sobre a trajetória, a técnica e a poética de criadores que despontam no cenário atual.
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