Da descoberta artística na infância à direção de curtas-metragens, a trajetória de Victor Melo une a força da pintura expressiva à visão de mundo neurodivergente.
A compreensão de que as histórias não surgem do nada, mas são criadas por pessoas, pode ser um divisor de águas na mente de uma criança. A revelação de que os livros não se escreviam e desenhavam sozinhos, descoberta ao assistir a um programa de televisão infantil, motivou a criação incessante de pequenas histórias caseiras, a ponto de lotar barris com narrativas desenhadas à mão. O empenho chamou a atenção da família, rendendo a matrícula em um curso de desenho onde os fundamentos da arte e o estudo das cores foram consolidados. A transição para as telas, no entanto, ocorreu de forma autodidata e movida por pura obstinação. O processo de tentativa e erro culminou na realização da primeira exposição, intitulada “MIRAGEM”, aos 20 anos, no Tijuca Tênis Clube — um marco cultural viabilizado pelo apoio fundamental de professores e incentivadores locais.
A pincelada brutal e a recusa ao cinismo adulto
Atualmente, a produção concentra-se no uso de aquarelas no papel e tinta acrílica sobre tela. O ato de pintar é encarado não como um processo metodicamente calculado, mas como um impulso animal incontrolável e orgânico, tão necessário quanto transpirar. O estilo visual é marcado por pinceladas curtas, rápidas, brutais e instintivas. Mais do que uma escolha estética, a arte funciona como uma ferramenta direta de comunicação e um ato de rebeldia contemporânea. Em um paralelo conceitual com os movimentos de contracultura das décadas de 1960 e 1970, a prática criativa age como uma recusa ativa em adotar o cinismo esperado da vida adulta, mantendo viva a centelha da imaginação para lidar com as complexidades da sociedade.
Memórias, neurodivergência e influências oníricas
As obras carregam uma forte carga autobiográfica e filosófica, fugindo de obviedades. Telas como “Lavando os pés” e “O aniversariante” resgatam memórias físicas da infância e sentimentos de ansiedade em situações sociais de celebração, reflexos de um diagnóstico tardio de autismo. Já a obra “O salto” dialoga diretamente com a filosofia de Nietzsche sobre dizer “sim” e aceitar plenamente a vida, enquanto a pintura “Amor” encontra inspiração na poesia de Elizabeth Browning, na musicalidade de John Lennon e na história de devoção de seus avós maternos, celebrando a poesia presente no envelhecimento e nas marcas do tempo. O flerte com o surrealismo e a criação de atmosferas oníricas ficam evidentes em “Homem elefante tenta recordar”, uma tela que flui de maneira irracional sob a clara influência de cineastas como David Lynch e Charlie Kaufman, somada ao legado de mestres da pintura como Goya, Francis Bacon, Van Gogh e Frida Kahlo.
A expansão para o audiovisual e as próximas mostras
Pautando sua trajetória com forte consciência social e orgulho de suas raízes na classe trabalhadora, a produção artística caminha lado a lado com a quebra de preconceitos e a celebração da diversidade. Atualmente, o olhar atento que estrutura suas telas está em fase de expansão para o cinema independente. O próximo grande passo da carreira envolve a direção e a roteirização do curta-metragem “A caixa”, um projeto narrativo envolto em mistério, protagonizado apenas por uma pessoa e o objeto que dá nome ao filme. Em paralelo à incursão no audiovisual, os preparativos para uma segunda mostra individual de artes plásticas já estão em andamento. Todas as novidades sobre os filmes, os quadros instintivos e os bastidores de produção podem ser acompanhados pelo perfil oficial do artista Victor Melo no Instagram [@victor.melo17].
