Pintura matérica traduz resiliência do Líbano em texturas de luz e sombra

Pintura matérica traduz resiliência do Líbano em texturas de luz e sombra

A artista Silvia Cury Chohfi utiliza a pintura matérica para transformar a memória cultural do Líbano em reflexões sobre tolerância e conflitos.

A compreensão de uma obra de arte contemporânea frequentemente exige o mapeamento das raízes geográficas do criador. Nascida em São Paulo em uma família de colecionadores, Silvia Cury Chohfi teve seu olhar treinado precocemente. No entanto, foi a mudança para o Líbano, aos 12 anos, que calibrou sua percepção analítica. A imersão em um país que é o berço da civilização fenícia — um caldeirão onde coexistem dezoito comunidades religiosas e influências árabes, otomanas e francesas — forneceu o repertório de resiliência que baseia sua poética. De volta ao Brasil, a artista estruturou sua técnica com passagens acadêmicas pela FAAP, Escola Panamericana de Arte, além de estudos de História da Arte com Lizetta Levi e ateliês com Carlos Fajardo. Essa bagagem converge hoje na pesquisa continuada e mentoria com o renomado artista Sérgio Fingerman.

A materialidade da tela e a construção de mosaicos

O grande diferencial técnico de sua produção passa pelo domínio de um conceito clássico da História da Arte: a “pintura matérica”. Consolidado no período do pós-guerra através do movimento Informalista, esse termo classifica a arte que abandona a superfície lisa e plana em favor do acúmulo físico de materiais, transformando a tela em um campo tátil e de relevo. Ao descrever seu próprio processo empírico — onde múltiplas camadas de tinta, massa acrílica, pigmentos brutos e emplastros se misturam em texturas —, a artista insere sua obra diretamente nessa prestigiada tradição estética. Essa densidade matérica é utilizada para construir mosaicos da cultura árabe, criando uma atmosfera de luz e sombra que revela símbolos gradativamente, exigindo uma imersão atenta onde a tela adquire o aspecto físico e emocional de um sonho.

Fragmentos como metáfora para o cenário global

A excelência dessa execução plástica não anula a carga social de seu acervo. A estruturação de suas obras em fragmentos — unidades de diferentes cores e formas colocadas lado a lado na massa acrílica — atua como uma metáfora visual rigorosa para os atuais conflitos globais. A tela convida o olhar a refletir sobre a linha tênue entre a tolerância e o preconceito. A depender da leitura, o observador pode enxergar um ritmo de harmonia ou a representação formal de uma sociedade fragmentada pela destruição e pelo tempo interrompido, consolidando seu trabalho como uma provocação necessária sobre a realidade contemporânea.

Validação no circuito e agenda de exposições

A densidade curatorial de sua pesquisa reflete-se em uma agenda institucional de altíssimo nível. O ano de 2026 atesta sua solidez no circuito: em fevereiro, participou como única artista convidada da mostra de Marcos Amato na Galeria Marcos Amato (com curadoria de Andrey Parmigiani e fotos de Everson), e em abril marcou presença na prestigiada SP-Arte, no Pavilhão da Bienal. Atualmente, o público e colecionadores ainda têm a oportunidade de conferir sua obra de perto no Salão de Arte Anual de Paraty, em cartaz até os últimos dias deste mês (30 de abril) na Galeria Platô 18 (@platodezoito), sob curadoria de Bruno Portella.

Com uma exposição já agendada para o FAMA Museu (Itu) em fevereiro de 2027 e processos de aplicação em andamento para instituições nos Estados Unidos, o contato e acompanhamento de seu acervo ocorrem pelo Instagram [@silchohfi.art].

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