Porcelana líquida e experimentação tátil redefinem escultura de parede

Porcelana líquida e experimentação tátil redefinem escultura de parede

A transição da cerâmica utilitária para a escultura contemporânea consolida uma pesquisa material de Cris Lins, focada na ação do tempo e na abstração da argila.

A evolução de uma pesquisa material frequentemente exige o abandono da funcionalidade. Iniciando sua trajetória na cerâmica em 2018 através da produção estritamente utilitária, a artista Cris Lins redirecionou seu foco técnico para uma investigação profunda da linguagem contemporânea. Seu ateliê concentra-se atualmente na concepção de objetos e esculturas de parede em porcelana, substituindo o pragmatismo do uso pela exploração da repetição, da leveza e da transformação física da matéria sob o efeito do tempo.

O estado líquido e a coautoria da gravidade

O eixo central de sua metodologia reside na experimentação contínua. Em vez de impor controle absoluto sobre a forma final, a artista trabalha frequentemente com a porcelana em seu estado líquido, aplicando-a diretamente sobre tecidos, moldes e superfícies diversas. Essa técnica permite que o acaso e o comportamento orgânico do material atuem de maneira ativa na construção da obra. O resultado empírico desse processo é a preservação de dobras, vestígios, relevos e imperfeições que deixam de ser vistas como falhas técnicas para se tornarem os elementos centrais de sua narrativa visual.

A materialidade crua e o rigor técnico

Tensionando a fragilidade visual da porcelana com a força ancestral da argila, a ceramista adota uma postura de intervenção mínima no acabamento superficial. A opção intencional por dispensar esmaltes e manter a matéria em seu aspecto mais natural tem o objetivo direto de potencializar a textura, a incidência de sombras e a presença tátil de cada escultura. Essa escolha estética, aparentemente crua, é sustentada por um rigoroso aprofundamento técnico focado em processos de queima, alicerçado por um período de estudos imersivos em La Bisbal d’Empordà, na Catalunha — cidade reconhecida internacionalmente por sua densa tradição cerâmica.

O silêncio no espaço contemporâneo

A inserção de suas obras no ambiente transcende a função do mero objeto decorativo. Embora seu acervo estabeleça um diálogo muito direto com a arquitetura e os interiores contemporâneos, a intenção primária da artista é utilizar a escultura como um território físico onde matéria, tempo e memória induzem à contemplação e ao silêncio.

Para o circuito de curadores, arquitetos e o público focado no design de presença sensível, o desenvolvimento contínuo dessa pesquisa pode ser acompanhado através do perfil [@crislins_ceramica].

Back To Top