Júri de Veneza 2026 mostra que é preciso dar limites

Júri de Veneza 2026 mostra que é preciso dar limites

As Bienais de Veneza das últimas décadas foram baseadas em um equilíbrio um tanto forçado entre a mostra central, com curadoria escolhida pela organização da mostra, e dos pavilhões nacionais, selecionados por instituições de cada país como uma representação oficial, que ocupa um dos 34 edifícios no Giardini ou outros espaços, especialmente alguns novos no Arsenale ou em palácios ao redor de Veneza.

Ao longo de sua longa história — a Bienal de Veneza foi criada em 1895 —, polêmicas não deixaram de existir nesta equação, mas, desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, a temperatura começou a ferver. Em 2022, artistas e curadores do Pavilhão Russo retiraram-se voluntariamente da mostra poucos dias após a invasão da Ucrânia, declarando que “não há espaço para arte quando civis morrem sob mísseis”.

Júri de Veneza 2026 mostra que é preciso dar limites

Em 2024, a Rússia permaneceu fechada, enquanto a artista do pavilhão de Israel, Ruth Patir, recusou-se a abrir o espaço, junto com seus curadores, colocando um aviso na porta informando que a exposição (M)otherland só seria aberta ao público após o estabelecimento de um acordo de cessar-fogo e libertação de reféns.

De certa forma, até então, as polêmicas ficavam nos pavilhões. A 61ª edição da Bienal de Veneza mudou essa tendência. No ano passado, o artista Khaled Sabsabi, nascido no Líbano e radicado em Sydney, foi escolhido para representar a Austrália agora em 2026. Em menos de uma semana, o governo interveio para anular a decisão, alegando que, ao incluir uma imagem borrada de um ex-líder do Hezbollah, em um vídeo de 2007, Sabsabi era um apoiador do terrorismo e antissemita.

Em resposta, Koyo Kouoh, diretora da principal exposição da bienal, Em tons menores, convidou Sabsabi para participar da sua curadoria. A indignação da comunidade artística e uma avaliação independente levaram à reintegração de Sabsabi ao pavilhão australiano.

Mas a atuação de Koyo foi decisiva para o que estava por acontecer com o júri, por ela selecionado, tendo como presidente a brasileira Solange Farkas e composto apenas por mulheres, fato inédito na história de Veneza. As demais são: Zoe Butt (Austrália), Elvira Dyangani Ose (Espanha), Marta Kuzma (Estados Unidos) e Giovanna Zapperi (Itália).

Integrantes do grupo russo Pussy Riot protestam em frente ao pavilhão da Rússia na Bienal de Veneza. Foto: Marco Bertorello/AFP

Logo que foi anunciado, em abril deste ano, o júri deixou claro, a partir do conceito de Koyo, que há limites: genocidas não serão avaliados. Com isso, os pavilhões de Israel e Rússia, países cujos líderes estão sob acusação de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional, ficaram fora da disputa. Os Estados Unidos também mereciam ficar de fora, mas sem uma condenação formal de um órgão internacional independente, não coube ao júri levantar essa acusação.

Semanas depois do anúncio, o júri renunciou à sua tarefa sem declarar os motivos, mas sabe-se que a atitude tem a ver com pressões da presidência da Bienal pela manutenção de Israel na premiação, que criou, pela primeira vez, um prêmio paralelo, a ser escolhido pelo voto dos visitantes. Imediatamente, a maioria dos 110 artistas selecionados por Koyo pediu à direção da Bienal para ser excluída do prêmio e estavam sem resposta até o início de junho.
O gesto menor de dizer não do júri, contudo, trouxe um posicionamento um tanto inédito, mas necessário, no circuito das artes: saber o momento de dizer não, de que limites são necessários.

Gabrielle Goliath
Pavilhão de Israel em Giardini durante a 60ª Bienal de Arte 2024. Foto: Hannah Goldsmith

O mercado não gosta de limites, aceita lavagem de dinheiro e de imagem com facilidade, vende para quem quer comprar, seja com nota ou sem nota. É um fato, e muitos artistas vêm aceitando participar de galerias que, sabidamente, não possuem régua ética ou moral.

Mas há artistas que estão impondo limites há anos, como Nan Goldin com a família Sackler, dinastia norte-americana fabricante de remédios opioides, responsável pela morte de cerca de 500 mil pessoas nos Estados Unidos, nos últimos 20 anos. Pois Nan Goldin liderou um movimento que retirou o nome dos Sackler de grandes museus dos Estados Unidos e da Europa.

Gabrielle Goliath
Entrada da Chiesa di Sant’Antonin em Veneza, onde ocorre a instalação de arte Elegy da artista Gabrielle Goliath.

Também o curador da 36ª Bienal de São Paulo, Bonaventure Soh Ndikung impediu um debate em sua mostra com a herdeira do rei Leopoldo II, da Bélgica, reconhecido por liderar um genocídio no Congo em pleno século 20.

Como dizia o personagem de Herman Melville, escrivão Bartleby, “acho melhor não” pode até ser um gesto pequeno, mas saber o momento de recusar legitimar situações imorais é um exemplo mais que necessário nos tempos atuais.

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