Quando menos é mais

Quando menos é mais

A entrada no Pavilhão Central da 61ª Bienal de Veneza, no Giardini, é bastante ritualística: primeiro é preciso atravessar as colunas transformadas em viveiros de plantas pela artista nigeriana Otobong Nkanga. Em seguida passamos pelos trajes de Big Chief Demond Melancon, líder da tribo Young Seminole Hunters do Lower Ninth Ward de Nova Orleans, inspirados em práticas cerimoniais levadas aos Estados Unidos por escravizados africanos.

Seguimos, então, contornando as esculturas em cerâmica da senegalesa Seyni Awa Camara, que há 75 anos aprendeu de sua mãe as tecnologias ancestrais para produção de utensílios cotidianos, que hoje, aos 80 anos, ela reinventa em formato de bestiário.

Então, nos confrontamos com uma espécie de assembleia com dezenas de esculturas zoomórficas em cerâmica da artista e ativista peruana Célia Vásquez Yui, denominada O Conselho dos Espíritos Maternos dos Animais. Todos esses animais olham para apenas um lugar e parecem desafiar o visitante.

E, logo atrás, está a instalação Anatomia da Árvore da Magnólia para Koyo Kouoh e Toni Morrison, da cubana radicada nos Estados Unidos María Magdalena Campos-Pons, que tem como paisagem sonora uma composição de Kamaal Malak.

A obra é composta por um imenso painel em oito partes onde se veem as duas homenageadas do título com pés de coruja. Assentadas em galhos da magnólia, é como se elas cuidassem das sete esculturas em vidro à sua frente, realizadas em Murano, que sintetizam as etapas de floração.

Estas cinco obras, dispostas em três salas de um azul intenso, que ora parece o céu, ora o mar profundo, sintetizam o conceito da mostra Em tons menores, concebida pela curadora Koyo Kouoh (1967–2025), nascida em Camarões, primeira mulher africana a cuidar da Bienal de Veneza, que, contudo, não viu o resultado de seu trabalho, já que morreu praticamente um ano antes da abertura da mostra. Foi a equipe curatorial por ela escolhida, apelidada de Esquadra Koyo, composta por Gabe Beckhurst Feijoo, Marie Hélène Pereira, Rasha Salti, Siddhartha Mitter e Rory Tsapayi, que deu conta de colocar o projeto em pé com um resultado além de surpreendente.

Há mais obras nas salas descritas, mas o objetivo até aqui foi trazer em destaque as mais simbólicas, mesmo deixando de citar um pequeno canto com obras de ninguém menos que Marcel Duchamp (1887–1968), como a icônica Boîte-en-valise (1935–1941), uma mala com miniaturas de suas próprias obras que não só aponta para um questionamento do espaço expositivo, como faz uma fina ironia com o título da mostra. Junto estão ainda fotos realizadas por ele de uma exposição surrealista de 1947, onde se veem obras da brasileira Maria Martins (1894–1973). Ao lado, em mais uma ironia, está uma imagem de Akinbode Akinbiyi, uma privada descartada pichada com a frase “Fuck Duchamp” em referência ao seu urinol, um precursor da arte contemporânea. Akinbiyi, que participou da mais recente Bienal de São Paulo, no ano passado, faz da fotografia uma forma de escavação cultural, em cidades como Berlim, Dacar e Bamaco.
“Os tons menores rejeitam o exagero orquestral e a marcha militar rígida, e ganham vida nos tons suaves, nas frequências mais baixas, nos murmúrios, nas consolações da poesia, todos portais de improvisação para o outro e o diferente. Os tons menores pedem uma escuta que evoca as emoções e as sustenta em troca”, escreveu Koyo, em texto no catálogo da Bienal.

De fato, como se percebe pelas obras até agora citadas, há uma intenção em apresentar uma produção potente, que escape de categorias rígidas do que é arte, e que inscreve no campo da produção cultural a possibilidade de sonho e resistência, tomando já no título a música como referência. Ao longo da mostra, não só a sonoridade de vários trabalhos ganha relevância, como também cheiros de vários tipos, colocando a retina como algo relativo. Não por acaso, a primeira frase do texto de Koyo é “feche os olhos”.

Essa potência toda está na instalação de Campos-Pons, que também esteve na mais recente edição da Bienal de São Paulo, com um trabalho em torno de flores. No caso de Veneza, ao expor o ciclo de floração da Magnólia, que se repete todos os anos, a artista está a sinalizar como a vida sempre renasce, que as sementes se espalham e multiplicam a natureza antes do fim, uma metáfora mais que necessária nos tempos atuais.

Vale ressaltar aqui que a homenagem à escritora Toni Morrison (1931–2019), primeira mulher negra a receber um Nobel de Literatura, em 1993, no painel das Magnólias, está em consonância com Koyo, que havia pedido à sua equipe que lesse dois livros como inspiração para Veneza: Amada, de Morrison, e Cem anos de Solidão, do colombiano Gabriel García Márquez (1927–2014).

Não tem como pensar nesses livros e não se lembrar de outro trecho do texto de Koyo, que descreve os tons menores como: “As canções daqueles que produzem beleza apesar da tragédia. As melodias dos fugitivos que se recuperam das ruínas. As harmonias daqueles que curam feridas e mundos”, já que ambos se inserem no realismo mágico, ele latino-americano, ela sobre a escravidão nos Estados Unidos.

Três eixos guiaram o desenvolvimento conceitual e a coreografia da exposição desta bienal: a procissão, o jardim crioulo — precursor do conceito de agrofloresta, que mistura em um mesmo espaço diferentes espécies de plantas — e o convite ao encantamento e a importância do repouso físico e espiritual.

O estúdio de design sul-africano Wolff Architects, da dupla Ilze e Heinrich Wolff, da Cidade do Cabo, é o responsável pela elegante expografia da mostra, toda ela construída em dois tons: azul profundo e marrom claro, por conta de um revestimento de papelão ondulado nas paredes, o que traz um sentimento de conforto. Ilze participou como artista da 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível, em 2023.

Fazem parte da expografia áreas de descanso ao longo da exposição, com diversos tipos de cadeiras. Ao mesmo tempo, é uma edição que, por se inspirar nas procissões de carnaval que se originam nas religiões de matriz africana, é uma mostra que convoca o corpo a criar um percurso fluido e com muitos respiros. Isso faz com que haja muito diálogo entre os trabalhos e poucas salas individuais, mesmo que os artistas estejam presentes de forma generosa, em geral com muitas obras.

Também é tônica da mostra obras com uma manufatura muito próxima da artesanal, baseadas em técnicas ancestrais, o que faz com que seja uma edição com pouca tecnologia e, por extensão, com poucos vídeos. Há muitos trabalhos baseados em coleta de materiais descartados, como é o caso do porto-riquenho Daniel Lind-Ramos, que participa com três esculturas com referências ao período de escravidão, quando barcos eram usados como escape para os mangues, onde escravizados conseguiam se esconder.

Nessa mesma estratégia estão as colagens do palestino Mohammed Joha, ainda no Pavilhão Central. Suas obras são construídas a partir da sobreposição de materiais descartados como papel, cartão ou tecido, em uma relação com a necessidade de permanente reconstrução na Faixa de Gaza. A delicadeza de suas montagens, apesar de abstratas, lembra paisagens urbanas imaginárias e se torna testemunha da resistência e da recusa do desaparecimento.
Arsenale

A mostra principal de Veneza sempre se divide em duas partes, uma no Giardini, onde também estão os pavilhões nacionais e outra no Arsenale, na parte onde eram fabricadas cordas para navios há pelo menos 400 anos, um espaço espetacular com mais de 300 metros de extensão.

Pois graças à expografia, o grandioso se tornou um lugar aconchegante e, caminhar por ele, uma experiência agradável. A começar pela obra de Khaled Sabsabi, nascido no Líbano e radicado em Sydney, que também representa a Austrália nesta edição da Bienal. Ele cria um ambiente imersivo com projeções de cores que se transformam, som e aromas. É acachapante.

Logo na sala seguinte estão as fotografias do brasileiro Eustáquio Neves, que apresenta duas de suas séries: Arturos, sobre uma comunidade quilombola em Minas Gerais, e Cartas ao Mar, realizada sobre o Cais do Valongo, o maior porto de recepção de escravizados da história. Suas imagens são sempre construídas em camadas e é difícil não perceber um diálogo com o realismo mágico nelas.

É também no Arsenale que está o outro brasileiro na mostra, Ayrson Heráclito, em uma das mais impressionantes instalações da Bienal. Ele apresenta Juntó, um conjunto de esculturas em metal e desenhos em tinta e aquarela criando um vocabulário de insígnias e ferramentas relacionadas aos Orixás, em uma eloquente homenagem ao Mestre Didi.

Na mesma sala de Ayrson está outro destaque desta edição, o artista norte-americano Nick Cave – não confundir com o músico de mesmo nome. Cave chegou a dançar na companhia do coreógrafo Alvin Ailey, o que o levou a construir uma obra que produz diálogos entre dança, moda e arte. Em Veneza, ele comparece com uma série de esculturas em bronze, tanto dentro da exposição, como na área externa do Arsenale, nas quais corpos se metamorfoseiam em plantas e animais.

Também neste espaço estão as pinturas de grandes dimensões do queniano Kaloki Nyamai, outro dos impactantes trabalhos desta bienal. Em grandes dimensões, as pinturas trazem em geral memórias do povo Kamba, grupo étnico bantu que vive no Quênia. É visível ainda a influência de sua mãe, uma artista têxtil, já que as telas são construídas como colagens, os fios são aparentes e trazem grande efeito visual.
Uma das últimas instalações no Arsenale é O fim do Mundo, do chileno Alfredo Jaar, que cria uma espécie de catedral toda em vermelho onde um cubo de apenas quatro centímetros reúne camadas com os minerais essenciais para as tecnologias tanto de guerra como de transição verde. É um pequeno altar ao fim e ao começo de tudo.

Além da produção de artistas, Koyo apresenta ainda seis escolas criadas por artistas – blaxTARLINES, Denniston Hill, G.A.S. Foundation, lugar a dudas,
Nairobi Contemporary Art Institute (NCAI) e RAW Material Company – que apontam para a importância da educação como motor de transformação.
Em um mundo em guerras sem fim, sob domínio de empresas de tecnologia que condicionam comportamentos e geram depressão, e onde a farmacologia está mais próxima de criar doenças do que saúde, Em tons menores ensina que as mudanças começam em casa, no diálogo com a natureza e com ensinamentos ancestrais e por gestos simples. Afinal, é como a Magnólia da instalação de Magdalena Campos-Pons, uma das espécies de plantas com flores mais antigas da Terra, que representa a força da vida, a resistência e a conexão com a eternidade.

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