“Surrealismos”: uma exposição para além do óbvio

“Surrealismos”: uma exposição para além do óbvio

O surgimento da exposição

A ideia partiu do Max, entre 2016 e 2017, da vontade de fazermos uma exposição sobre o surrealismo, que completaria 100 anos do lançamento do Manifesto [Surrealista] em 2024. Aquilo foi muito ao encontro de algumas questões que eu já vinha pesquisando.

O Max tem um entrosamento muito grande com colecionadores. Todas as obras aqui são de coleções particulares no Brasil — no Nordeste, no Rio de Janeiro e em São Paulo —, com exceção de três fotomontagens de Guignard, que pertencem ao Museu de Arte Moderna de São Paulo, e duas de Jorge de Lima, que são do IAB.

A ideia foi tomando forma em 2020 e, quando estávamos iniciando os preparativos, veio a pandemia. Em 2024 se comemoraram os 100 anos do lançamento do Manifesto, e pensamos que era possível idealizar uma exposição que prestasse homenagem a essa data, mas que também colocasse outras possibilidades de leitura do movimento.

A primeira coisa que concluímos foi que não chamaríamos a mostra de “exposição do surrealismo”, no singular, enfatizando pela enésima vez o movimento com começo, meio e fim, dos anos 1920 aos anos 1940. Optamos por uma compreensão mais ampla do fenômeno — esse elemento subjetivo que percebemos em artistas e intelectuais de oposição à extrema racionalidade da sociedade desde o século 19, e como isso vem aparecendo, ao longo do tempo, como um contraponto. Então, achamos que seria interessante colocar o surrealismo no plural, “Surrealismos”, com o subtítulo “Arte para além da razão”.

Isso fez com que retornássemos no tempo, para antes do surrealismo histórico, e nos projetássemos para a contemporaneidade, com muitos artistas que vieram depois dos anos 1940. Permitiu fazer uma exposição que desse conta do fenômeno do surrealismo — não daquele surrealismo que percebemos no romantismo ou em vertentes mais antigas da arte, mas de um panorama que contempla também a contribuição europeia histórica.
Temos obras de 1926, de meados da década de 1920, obras emblemáticas de artistas emblemáticos. Não é uma exposição óbvia. Não é o Dalí que você viu nos “Gênios da Pintura”: é um Dalí excepcional, inusitado.

 

Trazemos alguns norte-americanos, caribenhos e latino-americanos encontrando os brasileiros nesse contexto mais alargado da América Latina. E, por todos esses contatos que o Max tem com as grandes coleções particulares — e aqui agradeço aos colecionadores que cederam as obras —, foi possível trazer alguns dos melhores exemplares dessa produção internacional que está no Brasil, e também da produção brasileira, que é de altíssima qualidade.

Então penso que, ao inaugurar em 2026, estamos de alguma maneira finalizando as festividades da reflexão sobre o fenômeno surrealista, cujo Manifesto completou 100 anos há dois anos. A exposição cumpre isso. Obviamente, ela não é nem pretende ser conclusiva, mas traz outras possibilidades de pensar essa subjetividade surrealista que transcende o surrealismo histórico.

Temos, por exemplo, Louise Bourgeois, que tem uma função especial aqui. É uma artista que não está filiada especificamente ao surrealismo histórico, mas que traz, na passagem do século 20 para o 21, uma subjetividade e uma sensibilidade totalmente conectadas com o surrealismo. Temos também um núcleo dedicado a Maria Martins, essa sim ligada ao surrealismo histórico, mas cuja qualidade e potência extrapolam aquele momento.
Recomendo a exposição porque temos, por exemplo, um Léger de 1926 nem um pouco óbvio, que exige do público um esforço para conectá-lo ao debate surrealista em vigor em Paris naquele momento, dois anos depois do Manifesto. É de uma qualidade, de um requinte e de uma sofisticação, dentro da pintura do período entreguerras, que merece a visita. Você tem Max Ernst e, fundamentalmente, o Magritte da capa do catálogo, Miró, uma escultura fantástica de Giacometti, e os brasileiros Ismael Nery e um Di Cavalcanti estupendo. Enfim, fiquei fã desta exposição. Faltam artistas, sem dúvida que faltam. Mas a mostra não tem a pretensão de abarcar tudo, nem teria condições para isso.

Acho que ela pode ser, sobretudo para os estudantes, o início de um despertar, de uma curiosidade para essa subjetividade que nega tudo aquilo que tem transformado a nossa sociedade em algo tão problemático. Muito humildemente, a exposição ajuda essa moçada a começar a pensar.

A presença das mulheres no movimento

Muitas mulheres importantes, do ponto de vista artístico, participaram de maneira efetiva do movimento. No entanto, não quero criar polêmica, mas acho que a crítica e a historiografia sobre o surrealismo têm uma dimensão misógina muito visível.

No final dos anos 1960, o Museu de Arte Moderna de Nova York fez uma grande exposição que contemplava o Dadá e o surrealismo, em que as mulheres aparecem, algumas poucas, em notas de rodapé, e outras nem são reconhecidas como tais. Maria Martins, por exemplo, que conviveu com Breton, participou de exposições e tem obras no próprio MoMA, não foi sequer citada no catálogo — por uma arrogância masculinista, com aquela empáfia estadunidense que costuma ocorrer.

Temos muitas artistas aqui. Não na quantidade que gostaríamos, mas temos contemporâneas brasileiras como Lenora de Barros, Lia Chaia e Erika Verzutti, que desenvolvem poéticas nitidamente conectadas com essa subjetividade não positivista — algo que, durante certo período, foi o que mais se divulgou no campo, inclusive na arte brasileira.

É muito bonito rever Tunga nesse contexto ampliado do surrealismo. E rever um artista de São Paulo como Cláudio Cretti, que cresce dentro desse ambiente plural, ajuda a perceber as conexões que é possível fazer. Não é uma exposição formalista, embora tenha obras da qualidade que vocês estão vendo aqui. Acho que ela vai além.

O surrealismo para além da Europa

Historicamente, alguns surrealistas históricos — desculpem o pleonasmo, mas falo de André Breton e outros — vão para a América Central e as Antilhas, e ali fazem contato com artistas, intelectuais, poetas e escritores. Esse surrealismo de matriz europeia entra em conexão com um imaginário absolutamente fantástico, o dessas sociedades antilhanas e latino-americanas de maneira geral, o que ajuda a ampliar a compreensão que temos do surrealismo.

Há um artista muito identificado com o surrealismo internacional, Wifredo Lam, um artista cubano, filho de negros com chineses de Cuba. Ele fala: “O surrealismo está em Cuba, está na floresta, está nas pessoas”. Essas manifestações ditas marginais estão integradas à exposição, entendidas como fomentadoras de uma visão mais ampla do que pode ser o surrealismo. Acredito, inclusive, que seria possível pensar uma conexão entre essa matriz surrealista europeia e algumas manifestações que estão dentro das nações indígenas brasileiras.

Precisamos romper com aquela noção subserviente, colonizada, de dizer “o Ismael Nery é o nosso Chagall”. Não, não é. Chagall é Chagall, tem a contribuição que ele deu lá; e Ismael Nery dá uma contribuição em que conecta questões do surrealismo a outros elementos da realidade brasileira, e a singulariza. O mesmo acontece com Di Cavalcanti — há um Di Cavalcanti aqui de tirar o chapéu. Ele não é “o nosso De Chirico”. Isso é uma expressão do colonialismo sem ousar dizer seu nome, e acho muito ruim para a própria cultura e para a arte brasileira.

Lenora de Barros
Lenora de Barros, Homenagem a George Segal, 1984.

Sobre a ausência de indígenas na exposição

No caso aqui, os indígenas não entraram porque não deu tempo: é um assunto cuja complexidade exige uma historiografia que dê conta dele. Talvez na próxima a gente tenha. O que precisaria ser reforçado é essa oportunidade, ocorrida no Brasil, de conexão entre os postulados do surrealismo histórico e as diversas matrizes culturais e imagéticas que perpassam a cultura. Aquilo que chamamos de América Latina, na verdade, são várias nações, várias comunidades com culturas muito específicas, ligadas não só às correntes indígenas, mas também a tradições afrodescendentes.
Destaque latino-americano

Aqui está Octávio Araújo, por exemplo, contemplado na mostra, que demonstra um tipo de produção que dificilmente surgiria num ambiente europeu. Ele mistura uma sensibilidade e uma subjetividade que, de alguma maneira, estão ligadas à questão afrodiaspórica. Um dos elementos de riqueza da exposição é esse artista, que está esquecido. Posso estar cometendo alguma injustiça — e, se estiver, peço desculpas —, mas acho que a última exposição em que me lembro de ver Octávio, com uma sala, foi Territórios, na Pinacoteca, em 2017. É bom revê-lo agora em outro contexto, internacional e latino-americano, e não mais apenas em uma exposição voltada a artistas afrodescendentes do acervo da Pinacoteca.

Um momento de revisão do surrealismo

O dado que gera esse debate talvez seja a questão mais importante levantada nas comemorações do centenário do primeiro Manifesto Surrealista, em 2024. Isso ocorre num momento de profunda revisão. Há uma exposição interessante no Beaubourg, cuja primeira edição foi na Bélgica, depois passou por Paris, por uma cidade na Alemanha, por Madri, e terminou agora em fevereiro, na Filadélfia. É uma mostra que tem um único fecho, mas que se transforma em cada país onde é apresentada. Bom, o que tem em comum? O que tem de diferente? De alguma maneira, ela reflete essa grande revisão pela qual o surrealismo vem passando, a partir de uma compreensão que não o constranja mais a um período histórico definido.

Não fui eu que resgatei [esses artistas], nós resgatamos — há aqui também uma parceria importante com o Max. O que mais me surpreende, em primeiro lugar, é Octávio Araújo; nunca é suficiente criar oportunidades para mostrá-lo. É muito bom percebê-lo em suas fotomontagens, não só pela qualidade delas, mas porque é possível ver como a fotomontagem ajudou na complexidade da sua pintura. O problema é que essas fotomontagens pertencem ao Museu de Arte Moderna de São Paulo: são públicas, mas não têm oportunidade de ser mostradas o tempo inteiro. Isso também me deixa muito feliz.

A exposição foi muito feliz em trazer artistas conhecidos por meio de obras novas, que não são esquemáticas. Vocês não veem um Dalí que mostra apenas aquilo que já se espera dele, mas um Dalí de universo poético mais ampliado. Di Cavalcanti, como falei, tem obras de tirar o chapéu. Flávio de Carvalho, Siron Franco — enfim, há artistas aqui que não costumam ser mostrados dentro desse contexto. De maneira geral, todos ganham uma nova significação. Se você puder ver um bom Di Cavalcanti, um que foge dos esquemas em que foi circunscrito, ou um Cícero Dias, acho que é sempre uma boa oportunidade.

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