Na Fundação Prada Arthur Jafa e Richard Prince no “Helter Skelter”

Na Fundação Prada Arthur Jafa e Richard Prince no “Helter Skelter”

Não é raro que, quando a mostra principal de Veneza é muito potente, as representações nacionais fiquem um tanto opacas. Sem dúvida, foi o que ocorreu agora em 2026. Pouco há para se falar das escolhas oficiais, mas, em compensação, exposições paralelas trouxeram artistas e pesquisas com muito diálogo com a curadoria de Em Tons Menores.

A começar pela Fundação Prada, com Helter Skelter: Arthur Jafa e Richard Prince, que tem curadoria de Nancy Spector e revela um diálogo inesperado entre a obra de dois artistas americanos: Arthur Jafa (n. 1960) e Richard Prince (n. 1949). Ambos, é verdade, trabalham com a apropriação de imagens – Prince é particularmente reconhecido pelo uso das propagandas de cigarro com cowboys, mas essa parte não está lá.

O que está lá, e é bastante surpreendente, é constatar como ambos, há décadas, vêm tratando de uma “América” decadente e preconceituosa, que não tinha como não chegar a algo tão funesto quanto o governo Trump.

O título da exposição, “Helter Skelter”, funciona como um palimpsesto de significados e referências. Originária de uma atração de parque de diversões britânico, a expressão também é uma gíria para “caos”. É ainda o título de uma canção de Paul McCartney, lançada no Álbum Branco dos Beatles, de 1968. E, no mesmo ano, o líder de culto Charles Manson apropriou-se do termo para prever uma iminente guerra racial apocalíptica, na qual afro-americanos e brancos essencialmente se aniquilariam mutuamente.

Menos trágica e mais poética é a mostra dedicada ao artista queniano Michael Armitage, com curadoria de Jean-Marie Gallais, no Palazzo Grassi, do colecionador François Pinault. Assim como muitas obras na Bienal de Veneza, Armitage pinta em tecido lubugo, em vez da tradicional tela de linho, para fundamentar seu trabalho na cultura e história da África, o que resulta em uma superfície menos homogênea – às vezes há buracos na tela que são incorporados ao trabalho.

Além de usar uma técnica ancestral, em geral o lubugo é usado como mortalha, Armitage, mesmo tendo desenvolvido toda sua carreira na Inglaterra, usa o Quênia e seu povo como inspiração para suas obras. Aliás, em 2020, ele criou o Instituto de Arte Contemporânea de Nairobi, uma organização sem fins lucrativos.

Entre as pinturas, há desde temas como casais gays se beijando, uma referência a amigos que relataram homofobia, a cenas trágicas de naufrágios com imigrantes, como referências a filmes africanos ou mesmo à história da pintura.
Já o outro espaço da Coleção Pinault em Veneza, a Punta della Dogana, se dedica a outros dois artistas racializados: a norte-americana Lorna Simpson e o brasileiro Paulo Nazareth, com amplas retrospectivas sobre suas carreiras.

Comigo ninguém pode

Mas e os pavilhões nacionais? Há mesmo pouco a dizer, frente a exageros como o Pavilhão da Áustria, que causou furor nas redes sociais com as performances instagramáveis de Florentina Holzinger, como a mulher que de hora em hora é badalada em um imenso sino ou o jet-ski que circula dentro de uma piscina no pavilhão. Ações caras e supérfluas.

A Austrália, que havia ganhado como melhor pavilhão há dois anos, novamente traz um artista impressionante, Khaled Sabsabi, de origem libanesa, que apenas perde em originalidade porque sua própria obra, muito semelhante ao que está no pavilhão, é a primeira obra da curadoria de Koyo no Arsenale.
A Espanha tem destaque com uma imensa instalação de Oriol Vilanova, que preenche todas as paredes do edifício com cartões-postais, criando uma espécie de Atlas Mnemosyne de Aby Warburg, em que gatos ganham mais espaço que qualquer outro tema da antiga forma de comunicação pelo correio – certamente algo de que a Geração Z não tem ideia.

Nesse contexto, o Brasil acaba se sobressaindo pela curadoria de Diane Lima com Adriana Varejão e Rosana Paulino denominada Comigo ninguém pode. O pavilhão foi restaurado de maneira exemplar, com transparências que estavam muradas. Mesmo assim, há uma discrepância evidente. Enquanto Varejão faz uma certa cosmética nas questões decoloniais, que tanto agrada o mercado, mas já vem se repetindo há décadas, Paulino, com um imaginário a partir de memórias e histórias pessoais, apresenta um trabalho muito mais contundente, que merecia ocupar sozinha o espaço.

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