A interseção entre matéria, vazios e luz na cerâmica contemporânea

A interseção entre matéria, vazios e luz na cerâmica contemporânea

A artista visual Isabel Lacerda, à frente do Estúdio Monx, transforma a argila em luminárias e objetos escultóricos que redefinem a relação entre luz, sombra e espaço.

Das páginas literárias à materialidade da argila

Antes de se dedicar à tridimensionalidade da cerâmica, a trajetória profissional estabeleceu-se no universo das palavras. Nascida no Rio de Janeiro em 1966, a artista Isabel Lacerda construiu uma sólida carreira de mais de 30 anos no mercado editorial. Como editora da Nova Fronteira e, posteriormente, à frente da Editora Nova Aguilar, foi responsável por publicar obras de grandes nomes da literatura brasileira e mundial. A experiência internacional incluiu um período vivendo nos Estados Unidos, onde integrou por 16 anos a Alexander Street Press, pioneira na publicação de coleções digitais para pesquisa universitária.

Em paralelo ao rigor editorial, a pesquisa visual sempre esteve presente. O percurso artístico passou pelos estudos de mosaico com Moema Branquinho e pelo desenho com modelo vivo na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. No entanto, foi a partir de 2018 que a argila assumiu o protagonismo. O aprofundamento técnico ocorreu através de cursos e mentorias em cerâmica com nomes como Cecília Mônaco, Leonardo Baruk e Karina Inácio, direcionando sua produção atual para o desenvolvimento de luminárias e objetos escultóricos.

A luz como elemento estrutural e a intencionalidade dos vazios

O grande diferencial estético dessa produção reside no uso dos vazados como elemento central da linguagem visual. Feitos manualmente na argila, esses recortes retiram a matéria para construir o desenho, permitindo a passagem da luz, do ar e do olhar. A peça deixa de ser um objeto isolado para existir através da relação que estabelece com o espaço ao redor.

Durante o dia, a presença da obra é definida por seu volume, textura e pelo contraste entre cheios e vazios. À noite, a dinâmica se transforma: a luz atravessa os recortes artesanais e projeta novos desenhos sobre paredes e pisos. No ateliê do Estúdio Monx, o desenho e a experimentação caminham lado a lado. Padrões visuais reaparecem em diferentes trabalhos, mas sempre com variações intencionais de proporções, espaçamentos, tipos de argila, esmaltes e escalas, construindo, de forma gradual, um repertório autoral sólido.

Coleções marcantes e o diálogo com o paisagismo e a arquitetura

Produzidas em formato de peças únicas ou em pequenas séries, as criações atendem a áreas internas e externas. A versatilidade do fazer manual permite o desenvolvimento de trabalhos sob encomenda, em colaboração direta com clientes, arquitetos e paisagistas. Algumas peças tornaram-se marcos definidores dessa trajetória:

  • Coleção Bafafá: Pequenos abajures inteiramente de cerâmica (base e cúpula), com vazados inspirados no design mid-century modern. Foi a partir desta linha que a comercialização estruturada do trabalho teve início.
  • Luminária Damasco: Nascida de um projeto para uma residência em Alphaville (SP), é focada em áreas externas. Feita com argila de granulação grossa, o contraste entre a superfície áspera e a luz quente projetada pelos recortes a tornou um dos principais modelos para jardins.
  • Ovinhos: Derivadas da pesquisa para áreas externas, são luminárias para velas, projetadas em escala menor para varandas, transformando o ambiente instantaneamente com luz e sombra.
  • Esféricas e Véu: Produções mais recentes. As Esféricas utilizam argila reciclada do próprio ateliê, enquanto a peça Véu atua como uma obra escultórica onde a superfície vazada envolve o volume como uma membrana, filtrando a luz e revelando seu interior.

A influência litorânea e a agenda em São Paulo

Atualmente radicada em Itamambuca, no município de Ubatuba, litoral norte de São Paulo, Isabel Lacerda encontra na convivência diária com a natureza litorânea a principal referência para suas concepções. A varanda, o jardim, a casa aberta e o anoitecer são o contexto exato para o qual muitas de suas peças são imaginadas.

Ampliando a circulação física de suas obras, a artista apresenta parte de sua produção focada na relação entre cerâmica, luz e vazios em São Paulo, nos dias 5 e 6 de dezembro de 2026, participando da feira Futuro Mercado, no IBT – Instituto Brasileiro de Teatro. O acervo completo de projetos e lançamentos do Estúdio Monx pode ser acompanhado através de seu perfil oficial no Instagram [@isabel.lacerda_monx].

Pesquisador cultural. Dedica-se a mapear as novas vozes que passam a integrar o portfólio da Revista Creator. Apresenta análises detalhadas sobre a trajetória, a técnica e a poética de criadores que despontam no cenário atual.
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