Arte afro-brasileira une ancestralidade e fé no giz pastel

Arte afro-brasileira une ancestralidade e fé no giz pastel

O projeto Pintando Asé traduz a religiosidade de matriz africana através do giz pastel, rompendo com o rigor acadêmico para honrar a ancestralidade.

A trajetória acadêmica frequentemente atua como um preâmbulo para a verdadeira descoberta identitária. Graduada em Artes Visuais pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, Rafaela Dias Nunes Chiarini absorveu os fundamentos do desenho e o rigor da tinta acrílica sob a tutela do professor Eli Braga. Contudo, foi apenas após a conclusão do curso que sua assinatura visual começou a se materializar através do giz pastel. A escolha desse material representa uma subversão consciente: ao invés de buscar os refinamentos técnicos e a perfeição estética do realismo, a artista utiliza a opacidade e os limites do pastel para alcançar emoções, texturas e impactos visuais diferenciados.

A gênese do projeto e a religiosidade como pilar

A consolidação dessa pesquisa plástica sob a marca “Pintando Asé” ocorreu em um cenário de extrema vulnerabilidade estrutural. Em 2021, o adoecimento de seu animal de estimação, somado às complicações financeiras impostas pela pandemia, forçaram a profissionalização de seu ofício para fins comerciais. A pintura de orixás e entidades da Umbanda, temática iniciada em 2020, transcendeu o caráter meramente criativo para atuar como o principal pilar de saúde emocional e fonte de subsistência da criadora. A arte e a religiosidade fundiram-se como ferramentas inseparáveis de sobrevivência e conexão íntima com o sagrado.

A recusa do talento inato e a responsabilidade histórica

O cerne de seu acervo reside na investigação empírica e no respeito à ancestralidade afro-brasileira. Afastando-se de visões romantizadas do fazer artístico, a pintora rejeita a ideia de “talento inato”, estruturando sua prática sobre o conceito de aptidão aliada ao estudo rigoroso. Embasada no preceito fundamental dos terreiros de que os vivos são a materialização dos sonhos de seus ancestrais, ela encara o ato de pintar orixás não apenas como uma expressão estética, mas como uma imensa responsabilidade de reproduzir imagens de alto valor devocional para seu público, honrando a história dos que vieram antes.

Visibilidade e validação institucional

Essa produção de forte engajamento identitário e preservação de memória ganha espaço de validação no circuito cultural neste mês de junho. O projeto Pintando Asé integra a programação oficial do “Entardecer dos Ojás”, uma iniciativa cultural afro-brasileira idealizada pelo Babá Joel de Osagyian em 2016 com o propósito direto de fortalecer e dar visibilidade aos povos de terreiro.

A exposição ocorre nos dias 13 e 14 de junho de 2026, no Complexo Cultural de Planaltina (DF). Para curadores, colecionadores e o público interessado em sua pesquisa sobre a estética da fé, o portfólio completo encontra-se disponível no Instagram [@pintandoase].

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