A artista visual Sandra Valentim, ressignifica sua trajetória com telas em acrílica que exploram a cor como linguagem central.
O chamado do mar e o início autodidata
Muitas vezes, a arte surge de maneira inesperada, ancorada em contextos que aparentemente não teriam relação direta com os pincéis. Há cerca de 23 anos, aos 40 anos de idade, o convívio com o sonho familiar de viver no mar, dentro de um veleiro, serviu como o estopim para a busca por um curso de pintura livre. O que era para ser uma simples experiência transformou-se em um encontro definitivo.
A construção de sua identidade nas artes plásticas ocorreu de forma essencialmente autodidata. Movida por um impulso contínuo de descoberta, a artista Sandra Valentim iniciou sua produção utilizando tinta a óleo sobre tela, retratando predominantemente máscaras, rostos e olhos. As cores já exerciam uma força magnética sobre seu processo, e a pintura logo se consolidou como uma forma simultânea de escape e de profundo encontro pessoal, guiada pela liberdade e intensidade visual inspiradas em referências como Picasso, Van Gogh e Gauguin.
O silêncio criativo e a coragem para o recomeço
Apesar da intensidade inicial, a trajetória não seguiu uma linha ininterrupta. O contato com o lado comercial do mercado de arte gerou uma insegurança paralisante: o medo de vender uma obra e jamais conseguir alcançar aquela mesma centelha criativa novamente. A percepção da criação como algo irrepetível culminou em um afastamento que durou mais de uma década.
No entanto, o instinto criativo não desaparece; ele apenas aguarda o momento certo para despertar. O retorno aos ateliês, anos depois, não significou simplesmente retomar de onde havia parado. Exigiu um recomeço. Hoje, aos 63 anos, a artista vivencia um autêntico renascimento artístico, marcado pela transição técnica para o uso da tinta acrílica sobre canvas e por um novo aprofundamento em sua pesquisa visual.
A cor como protagonista e linguagem ativa
Nesta nova fase criativa, a cor deixou de ser um mero elemento estético para assumir o papel de linguagem principal. O processo de criação de Sandra subverte a lógica tradicional: as telas não começam com uma imagem completamente definida, mas sim a partir da própria cor. A observação constante revelou que as tonalidades não são passivas — elas falam, calam, sorriem e choram. Podem aproximar, afastar, esconder, revelar, criar tensão ou provocar o mais absoluto silêncio.
Durante a pintura, são as próprias cores que parecem ditar a regra e o posicionamento dentro da tela. Através de sobreposições, retiradas e de uma escuta atenta da obra, a relação entre as tonalidades determina o caminho da composição, fazendo com que as formas apareçam e encontrem o seu lugar de maneira orgânica.
Séries marcantes: entre a esperança e o resgate da memória
Refletindo o atual momento de transformação, a produção contemporânea da artista afasta-se de antigas temáticas ligadas à dor e à solidão para investigar novos territórios de esperança, presença e renovação. Dois projetos recentes ilustram esse amadurecimento:
- Série Éter: Iniciada em 2024 e composta por onze obras interligadas, a série trabalha transparências, profundidades e sobreposições. É o resultado de uma investigação cromática consciente sobre os ciclos que terminam e dão espaço ao novo.
- Projeto Gênesis: Um movimento de resgate poético. A artista revisita as imagens e o primeiro gesto de sua fase inicial (aos 40 anos), transpondo-os para novos suportes e promovendo a aproximação entre a arte e o cotidiano.
Essas produções formam a base da identidade visual atualizada da artista, assinada sob a marca Valentinartsp.
O retorno às galerias e a agenda de exposições em 2026
O histórico de exibições, que conta com uma importante passagem pela Agora Gallery (Nova York) em 2008, voltou a pulsar ativamente. Após a participação em uma exposição coletiva na The Coast Gallery em julho de 2026, o movimento de retomada ganha um novo e importante capítulo neste mês de setembro.
As obras de Sandra Valentim integrarão a exposição coletiva promovida pela “Expo Arte SP”, que ocorrerá na Galeria Caribe entre os dias 17 e 27 de setembro de 2026. Representando muito mais do que um evento cultural, a mostra simboliza a celebração de um caminho que prova que a arte tem o poder de devolver a cor ao que parecia silenciado. A evolução da pesquisa cromática e as novas coleções podem ser acompanhadas pelo público através do Instagram [@valentinartsp].
