A artista Amina Oslati utiliza o desenho intuitivo, o humor e as formas abstratas para construir uma linguagem visual autoral livre de amarras.
Para muitos criadores, a arte preenche as lacunas da linguagem verbal. Amina Oslati encontrou no desenho, desde a infância, a sua principal ferramenta de comunicação para contornar a timidez. A repetição exaustiva dos traços estruturou sua base técnica, mas foi o abandono das regras estritas que definiu sua assinatura. Após interromper um curso técnico de ilustração, a artista optou por uma formação intelectual independente, consumindo vorazmente livros, exposições, internet e revistas de banca. O contato plural com mestres clássicos, modernos e contemporâneos — de Da Vinci, Kandinsky e Cézanne a Basquiat, Yayoi Kusama e cartunistas consagrados como Laerte e Angeli — forneceu o repertório necessário para que ela pudesse, ironicamente, se libertar das referências diretas. Hoje, seu processo criativo recusa a cópia para exercitar a intuição pura, garantindo a originalidade de suas formas abstratas.
A materialidade do afeto e a urgência criativa
O domínio do lápis permanece como o alicerce absoluto de sua produção, mas a escolha do material obedece estritamente à necessidade emocional do momento. O processo criativo de Oslati é marcado pela urgência e pela ausência de planejamento prévio; a criação atua como uma liberação de acúmulos sensoriais. Para os diálogos mais íntimos e delicados consigo mesma, a artista recorre ao giz, à aquarela e aos lápis de cor. Em contrapartida, quando o objetivo é estabelecer uma conversa direta, robusta e marcante com o público, ela migra para a densidade proporcionada pela tinta acrílica e a óleo. Nessas telas, um sentimento abstrato é meticulosamente traduzido em escolhas específicas de cores e linhas, revelando uma dualidade constante entre a mente e o coração.
O humor, a psicodelia e o contato urbano
A recusa em enxergar a arte puramente como um produto comercial engessado permite que a artista explore linguagens frequentemente marginalizadas pelo circuito tradicional. Seu repertório absorve o senso crítico e o traço simplista característicos das charges e caricaturas. A introdução do humor e de uma atmosfera psicodélica — um senso de fuga da realidade — permite que ela capture e amplifique a essência de seus temas. Essa sensibilidade encontrou aplicação prática e urbana de forma intencional ao longo do último ano. Sem aguardar a chancela de galerias, Oslati levou sua arte para as ruas, realizando caricaturas ao vivo no emblemático Beco do Batman, experiência que pode ser acompanhada através do perfil [@caricaturadobeco].
Ativismo esportivo e expansão digital
A noção de coletividade, diversidade e ocupação de espaços transborda do ateliê para a vida pessoal da artista. Oslati integra o primeiro time LGBTQIAPN+ de rugby do Brasil, uma associação cultural que transcende o esporte para promover a inclusão através de oficinas, ações sociais, jogos e treinos gratuitos. Essa mesma necessidade de expansão reflete-se em sua forte presença digital. Assumindo a postura de quem gosta de “se espalhar” pela internet, ela mantém há dez anos a produção de crônicas e reflexões em blogs como o Impressões Avulsas, enquanto consolida a divulgação de seu acervo visual através de seu Instagram principal [@amina.clementina].
Em sua visão, a arte cumpre o seu papel primário ao conectar pessoas que compartilham da mesma excitação estética e emocional que guiou a mão da criadora.
