A artista visual Luciana Procópio resgata uma herança familiar para converter a captura de paisagens e técnicas mistas em um convite visual ao acolhimento
A herança visual e a transição de um ambiente burocrático para a arte
A capacidade de observar o mundo com sensibilidade frequentemente tem raízes na herança familiar, mas exige coragem para ser transformada em ofício. O olhar para a imagem foi moldado por duas vias complementares: a influência paterna, através da atuação de um fotógrafo no Rio de Janeiro na década de 1960 que ensinou o valor de registrar aquilo que toca o coração, e a percepção materna, que direcionou a atenção para os micro detalhes da natureza, como o orvalho e o movimento do vento nas folhas. O aprofundamento técnico iniciou-se em 2009 com a aquisição de uma câmera DSLR. Na época, a atuação profissional concentrava-se no cargo de tabeliã concursada do 2º Tabelionato de Notas de Lima Duarte (MG), assumido em 2007. Em dezembro de 2011, a decisão de romper com um ambiente de trabalho hostil e pouco receptivo à presença feminina motivou a renúncia à função pública, abrindo caminho para uma transição definitiva de carreira em direção à arte.
O ponto de virada em Roma e o encontro com a beleza
O desejo inicial era focar na captura de paisagens, mas o mercado educacional da época priorizava cursos voltados para pessoas, moda e eventos. A frustração com essa incompatibilidade quase levou ao abandono do projeto em 2014, quando parte do equipamento foi vendida para financiar uma peregrinação pela Itália e Portugal. Foi exatamente nesse trajeto que ocorreu uma transformação profunda de perspectiva. No sexto dia de viagem, ao caminhar em direção à Basílica de São Pedro, em Roma, a experiência de atravessar a rua revelou-se como um divisor de águas, descrita como a sensação da abertura de um véu. Aquele instante consolidou a compreensão de que a contemplação estética poderia atuar como um bálsamo curativo para as adversidades profissionais e pessoais anteriores, ressignificando o chamado para compartilhar as belezas da jornada através das lentes.
Fundamentação teórica, teologia e a imagem como experiência
O impacto dessa vivência materializou-se na primeira exposição individual, “Luminosità: uma peregrinação sob as luzes da Itália”, realizada em agosto de 2015 na Casa D’Itália, em Juiz de Fora (MG), seguida pela mostra “ZOE: Vida em Deus” no mesmo local, em abril de 2016. Para compreender e estruturar a beleza como uma linguagem legítima, a formação acadêmica foi expandida com estudos em Teologia, culminando no trabalho “O Belo na Arte: caminho para o mistério de Deus”. A pesquisa avançou para o mestrado em Letras com abordagem transdisciplinar, focado no estudo “A Madona de Cedro e as imagens Gerais: literatura e religiosidade”. Todo esse embasamento fez com que o ato fotográfico deixasse de ser um simples registro documental para se tornar uma via sensível de conexão divina. O foco voltou-se para as cenas simples, criando imagens que traduzem silêncio, liberdade e paz, funcionando como um oásis visual para mentes esgotadas pelo excesso de estímulos contemporâneos.
Intervenções mistas e o compartilhamento do olhar criativo
A partir de 2021, a materialidade do trabalho artístico incorporou intervenções táteis, somando folha de ouro e bordado sobre a fotografia impressa. A exploração expandiu-se para abordagens abstratas e contemporâneas, como o bordado livre sobre tinta acrílica em tela e a aplicação de ouro sobre papel vegetal. Além da produção autora, que mais recentemente integrou a exposição coletiva “Elas” em março de 2025, no Ateliê das Molduras, o conhecimento é repassado através de vivências criativas e do projeto “Na Palma do Olhar”, que democratiza técnicas de fotografia via celular.
Em março deste ano, a inauguração de um segundo estúdio, agora integrado a uma galeria de arte, consolidou um espaço físico inteiramente dedicado ao encontro e à pausa. Todo o acervo fotográfico, as obras com intervenção mista e a agenda de cursos da artista visual Luciana Procópio podem ser acompanhados diretamente através de seu perfil no Instagram [@luprocopioarte].
