A artista Livia Scussolino utiliza a pintura em porcelana no Lis atelier para criar peças de tradição europeia que eternizam memórias afetivas.
O esmalte como elo entre o rigor técnico e a expressão afetiva
Em uma era dominada pela produção acelerada e pelo consumo de itens descartáveis, o resgate do trabalho manual surge como uma forma de resistência cultural e preservação de histórias. Transformando a matéria bruta em brilho e permanência, a pintura em porcelana eleva objetos utilitários ao patamar de legado emocional. Inserida nesse movimento de valorização do tempo lento, a artista María Livia Fiuza Scussolino, também conhecida como Livia Scussolino, encontrou no esmalte um fio invisível condutor para sua trajetória. À frente da marca Lis atelier, ela une a precisão e a delicadeza artesanal para resgatar o valor do afeto, traduzindo técnicas sofisticadas em peças criadas para atravessar gerações.
Da precisão da estética bucal ao recolhimento na pandemia
A repetição poética do esmalte como linguagem sensível permeia a história da criadora muito antes das artes plásticas. Formada em Odontologia e com pós-graduação em Estética Bucal pela UNICAMP, ela iniciou sua vida profissional em uma área pautada pelo extremo rigor técnico e pelo olhar minucioso sobre beleza e acabamentos. Após o casamento e a maternidade, optou por pausar a carreira para dedicar-se integralmente às filhas. O ponto de virada criativa ocorreu durante a pandemia, quando um momento de recolhimento e redescoberta pessoal a levou a iniciar estudos artísticos, revelando na porcelana uma continuação silenciosa de tudo aquilo que já carregava em sua essência.
Imersões na Europa e aprofundamento técnico internacional
O interesse inicial transformou-se em uma busca profunda por excelência artesanal e repertório histórico. Natural de Tatuí e residente em Rio Claro (SP), a artista mantém uma rotina de deslocamento até a capital paulista para aulas com Nanci Caliente, aliando o ensino local a uma forte capacitação internacional. Destacam-se os estudos com a francesa Elsa Claire Rondeau e a imersão, em 2024, em Limoges — o berço da manufatura na França —, com visitas aos museus de Adrien Dubouché e Sèvres. Em 2025, o aprimoramento seguiu em Portugal, na tradicional Vista Alegre. Com novo retorno à França marcado para 2026, seu domínio abrange expressões clássicas complexas, como a técnica Toile de Jouy, a modelagem de laços em massa e a confecção de “ovos imperiais”.
A herança manual e a arte de revelar beleza e valor
Mais do que a aplicação de pigmentos e ouro líquido, a produção consolida-se como a extensão de uma identidade. Herdeira de uma linhagem feminina, a autora cresceu observando a delicadeza das mãos de sua mãe na transformação de tecidos através da costura. Hoje, essa bagagem afetiva ganha uma leitura contemporânea em coleções autorais, criações exclusivas e peças sacras pintadas inteiramente à mão. Fundamentado no conceito de revelar beleza onde muitos já não percebem valor, o ateliê atua para transformar o cotidiano em uma verdadeira experiência estética.
O portfólio completo destinado a quem busca preservar narrativas por meio da arte pode ser acessado através do perfil no Instagram [@lisatelierc].
