A fusão entre o fogo, a cerâmica e a transparência do vidro na arte contemporânea

A fusão entre o fogo, a cerâmica e a transparência do vidro na arte contemporânea

Com quase três décadas de pesquisa, a artista visual Ana Paula Lanari une a cerâmica de alta temperatura, o vidro e as lendas botânicas em suas obras

Do design têxtil ao resgate emocional através do barro

O percurso de uma pesquisa artística é frequentemente marcado por transições e quebras de expectativa que redirecionam a força criativa. Nascida em Belo Horizonte e apoiada desde cedo por uma base familiar incentivadora, a trajetória nas artes começou através de cursos livres durante a infância e juventude. O ingresso acadêmico deu-se na área de Comunicação Visual, mas o curso foi interrompido para dar lugar à paixão pela estamparia têxtil e pela estruturação de uma empresa própria no setor.

O fechamento dessa estamparia representou um momento de pausa e tristeza, mas atuou como o principal catalisador para um encontro definitivo: a descoberta da cerâmica. O contato com o barro não apenas abriu novos caminhos, mas operou uma profunda mudança de vida. Há quase trinta anos, a artista modela massas disformes, transformando-as em peças complexas, alicerçadas em anos de estudos, práticas e viagens dedicadas à compreensão de uma das artes mais antigas da humanidade.

A imersão na capital mundial da porcelana e o folclore da natureza

A busca por conhecimento técnico e conceitual proporcionou marcos importantes, como a viagem de estudos para Jingdezhen, na China — reconhecida como a capital mundial da porcelana. Acompanhando um grupo de ceramistas mineiros, a imersão na cultura local e no berço do material transformou profundamente sua cosmovisão e sua abordagem estética.

Recentemente, a paixão pelo ofício encontrou um novo fôlego ao cruzar-se com o universo da botânica. A constatação de que cada espécie vegetal carrega consigo uma lenda ou uma tentativa histórica de explicar os fenômenos da natureza resultou em uma pesquisa de quase três anos. Esse estudo profundo originou o projeto “As Lendas da Natureza”, que se desdobrou não apenas em peças cerâmicas, mas também em um livro publicado em formato digital.

A nova fronteira material: o equilíbrio entre a cerâmica e o vidro

Movida pela imaginação e pela criação, a pesquisa material avança agora para um novo território técnico. Mantendo o fogo como elemento central de transformação, o foco atual reside em encontrar o ponto de equilíbrio exato entre a robustez da cerâmica de alta temperatura e a delicadeza e transparência do vidro. A união desses dois materiais complexos exige paciência e respeito aos ritmos da matéria, onde o tempo atua como um senhor exigente no controle da ansiedade inerente a todo novo aprendizado. As obras mais recentes refletem exatamente esse diálogo inédito entre a opacidade da terra e a fluidez vitrificada.

Presença no circuito cultural mineiro

Todo esse repertório visual tem circulado ativamente pelo cenário cultural de Belo Horizonte. Recentemente, parte de seu acervo pôde ser visto na exposição coletiva “A Vida e a Natureza no centro da Arte”, que esteve em cartaz até o final de agosto de 2026 na Casa de Cultura Hélcio Roscoe, no bairro Belvedere, dividindo o espaço com os artistas Hélcio Roscoe e Diva Dias. A evolução de sua pesquisa técnica, a fusão com o vidro e os links para a publicação literária sobre as lendas botânicas estão documentados e disponíveis para o público através de seu perfil oficial no Instagram [@ana_paulalanari].

Pesquisador cultural. Dedica-se a mapear as novas vozes que passam a integrar o portfólio da Revista Creator. Apresenta análises detalhadas sobre a trajetória, a técnica e a poética de criadores que despontam no cenário atual.
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